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Suely Franco e Sergio Britto

Ubiratan Brasil

29 de janeiro de 2011 | 01h29

  Acabo de voltar da estreia paulistana da peça ‘Recordar é Viver’, no Teatro Anchieta do Sesc Consolação. Juntei-me à sala lotada que aplaudiu, durante vários minutos, Suely Franco e, principalmente, Sergio Britto, que vivem um casal de idade avançada e cuja relação já se desgastou o máximo possível. O que segura a união é a presença na casa do filho caçula, que ainda vive com eles apesar de seus 30 anos. Embora desorientado (é um escritor sem sucesso), ele sabe que sua presença é que dá esperança de vida ao velho pai, adoentado por um câncer.

É o clássico retrato da família desunida. A mãe, realista e de personalidade leonina, espera que o filho encontre seu caminho, enquanto o pai é mais sonhador e adepto de dar tempo ao tempo. Lembrou-me um livro de Orígenes Lessa, O Feijão e o Sonho, que inspirou uma novela global nos anos 70 ou 80. De um lado, a praticidade da mãe (o feijão), do outro o idealismo do pai (sonho).

Suely Franco impressiona por sua interpretação feroz. É a típica figura materna dominadora, incapaz de receber negativas como resposta. Seus gritos ecoam pelo teatro sem parecer exagerados e lembram muito outra memorável interpretação, a do musical que contava a história das irmãs Batista. Suely era a irmã desbocada (infelizmente, não me lembro qual delas), enquanto Nicete Bruno fazia a mais frágil, ambas na fase da velhice. Seus gritos não ficam parados no ar.

Sergio Britto, por sua vez, já deixou de ser um simples ator para se tornar um monumento. Claro que a idade avançada (87 anos) o favorece, mas ele não se impõe pelo respeito. Se tem os movimentos levemente limitados (especialmente o caminhar), Sergio compensa com folga nas expressões e, principalmente, na voz. Ele pertence àquela geração em que a entonação é um grande trunfo, conseguindo traduzir a emoção precisa com a devida modulação. Ouvi-lo é uma dádiva, um privilégio.

A se lamentar apenas o texto, de Helio Sussekind. Confesso não ter gostado, achando-o previsível e, por vezes, recheado de frases clichês e de lugar-comum. “Mas são frases que dizemos no dia-a-dia”, afirmou um amigo, que discordava da minha avaliação. Mas, teatro (assim como a arte em geral) não serve para mim como um simples reflexo da vida – espero algo mais, que me faça refletir, alcançar uma outra esfera. De ‘Recordar é Viver’, certamente só vou me recordar das atuações de Suely e Sergio.

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