As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Saramago

Ubiratan Brasil

21 de outubro de 2010 | 14h24

  Assisti, em uma sessão especial para jornalistas, ao documentário ‘José e Pilar’, sobre o escritor português José Saramago, morto em junho, e sua mulher, a jornalista espanhola Pilar Del Rios. Trata-se de um longo acompanhamento do que era a agitada rotina do casal, registrada desde 2006.

Para quem conhecia as opiniões de Saramago, ali está um retrato fiel. O cineasta Miguel Gonçalves Mendes selecionou momentos marcantes e hilariantes, como aquele em que, no México, instigado por uma repórter de TV a passar uma mensagem de Natal para o povo mexicano, o escritor olha desesperado para o lado e fala: “Por que isso, Pilar? Eu odeio Natal!”

As contestações religiosas, aliás, católicas em especial, também marcam o documentário, mostrando como Saramago era realmente cético em relação a crenças. Segundo ele, Deus vai deixar de existir quando morrer o último crente, pois a existência Dele só se justifica com a presença do homem na Terra.

Há momentos tocantes também. Como quando ele observa, com um leve tom de tristeza: “Não queria estar na pele da Pilar quando eu desaparecer, mas de toda a maneira vamos ficar perto um do outro, as minhas cinzas vão ficar debaixo da pedra do jardim.”

Era o amor incondicional por Pilar que parecia mover Saramago. Ele é extremamente carinhoso com ela (um único momento de exceção acontece quando Pilar defende ardorosamente Hilary Clinton, no que é contestada pelo marido). E ela revela-se uma mulher extremamente prática, acreditando que todas as forças devem ser aplicadas no trabalho.

Por conta disso, o documentário registra em detalhes a infinidades de viagens feitas por eles, cruzando oceanos, encarando entrevistas, submetendo-se a intermináveis sessões de autógrafos. Algo tão assustador que não é de se estranhar que Saramago tenha ficado seriamente doente.

Ficam, assim, as dúvidas: será que, se viajasse menos, se tivesse menos compromissos, Saramago ainda estaria vivo? Ou não, ele realmente já estava muito frágil e aproveitou bem seus últimos dias?

Em todo caso, é delicioso acompanhar aquele homem apaixonado: pela escrita e, principalmente, pela sua mulher.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: