As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Sábato

Ubiratan Brasil

01 de maio de 2011 | 19h08

  Com tristeza recebi a notícia da morte do escritor argentino Ernesto Sábato, aos 99 anos. Há pouco mais de um mês, conversei com o correspondente do Estado em Buenos Aires, Ariel Palacios, e acertamos uma estratégia de aproximação com Sábato, já pensando em seu centenário, que acontece em junho. Ariel me disse que dificilmente conseguiria falar com ele, pois estava muito doente, mas tentaríamos montar um quadro de sua rotina a partir de conversas com vizinhos e parentes próximos.

  A perda de figuras como Sábato sempre é lamentável, mas preciso confessar que sinto ainda mais quando se trata de algum escritor que não consegui entrevistar. Pode soar como um certo egoísmo, que não nego, mas quem tem o privilégio de conversar com figuras do quilate de Sábato sabe do que estou falando. São pessoas tão grandiosas que nos deixam, encerrada a entrevista, a difícil missão de fazer o leitor também compartilhar aquele momento sublime. Muitas vezes, por mais que eu caprichasse, sei que fiquei devendo ao entrevistado (e, pior, ao leitor) uma resposta à altura de nossa conversa.

  Sábato fazia parte daquele reduzido grupo dos grandes escritores argentinos do século passado. Com sua morte, todos agora já se foram: Borges (o maior de todos, certamente), Cortázar e Bioy Casares. Mais que uma literatura exemplar (que felizmente persistirá por séculos), eles (e Sábato em especial) deixaram lição de humanismo. Alguém pode contestar e lembrar da relação mantida por Borges com os militares durante o regime de exceção. O assunto poderia, com isso, guinar para a possibilidade ou não de se distinguir o autor de sua obra – pode alguém que tenha cometido sérios pecados ser perdoado graças às obras primas que deixou nas artes? É um assunto vasto e fascinante e, mesmo não avançando, deixo aqui minha posição: sim, eu não diminuo o valor de alguma obra se seu autor tenha cometido alguma atrocidade. Acho que, misturando tudo, estamos perigosamente reduzindo os fatos. Assim, não acho, por exemplo, que Marília Pêra deixe de ser ainda uma das melhores atrizes brasileiras de todos os tempos só pelo fato de, nos longínquos anos 1990, ter apoiado Collor.

  Digressões, digressões, apesar de assuntos importantes. Mas o que vale agora é homenagear Sábato, homem que esteve duas vezes à beira do suicídio mas que dizia ter sido salvo pela arte.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.