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Rent

Ubiratan Brasil

22 de setembro de 2010 | 13h52

Quem gosta e conhece musicais da Broadway, já ouviu falar de Rent. Estreou em 1996 e logo se transformou num mega sucesso. Contribuiu, infelizmente, a morte do autor, Jonathan Larson, exatamente no dia da estreia. Claro que foi uma tremenda comoção e , em sua homenagem, a estreia foi mantida.

Jonathan se inspirou na ópera italiana La Bohème, de Giacomo Puccini, para mostrar a rotina de artistas boêmios de Nova York. Visto naquela década de 1990, o musical causava impacto, pois retratava situações que então incomodavam, como morte pela aids e casais homossexuais. A trama, assim, era carregada de emoção acompanhada de dor. Analisando friamente, tratava-se de uma visão triste e pouco esperançosa da vida.

Quando estreou, Rent provocou inevitáveis comparações com Hair – afinal, se este viajou pela anarquia da geração LSD dos hippies dos anos 1960, aquele buscava dissecar a voz de uma geração do final do milênio, tratando de temas como medo, angústia e confusão. Ambos deixavam um gosto amargo na boca quando se fechavam as cortinas.

São hoje espetáculos datados, mas acredito que Rent resistiu menos à corrosão do tempo. As canções otimistas e provocadoras de Hair ainda resistem com um certo frescor, pois as guerras continuam atuais e talvez mais sangrentas. Já as frustrações da moçada agora são outras. Ok, medo, angústia e confusão são temores eternos, que vão permanecer sempre, mas a tecnologia avançada criou novas formas de relacionamento, o isolamento físico tornou-se até natural pois o mundo pode estar à mão com apenas um clic. Com isso, os anseios são diferentes.

Bom, não era essa psicologia barata que me interessava comentar, mas a forma como Rent tornou-se um espetáculo chato. O motivo dessa conversa é que comprei um DVD com a gravação da última apresentação do musical, depois de 13 anos em cartaz na Broadway. Gosto de filmagens de teatro, desde que não se limitem a apenas uma câmera filmando o plano geral e um ou outro close. Um dos musicais que mais gosto, Company, pode ser acompanhado em DVD de uma forma magnífica.

Em Rent, a tecnologia foi colocada à disposição do espetáculo, as câmeras captam detalhes que certamente em um teatro enorme seriam imperceptíveis. Mas, repito, a forma de transmissão da mensagem do espetáculo envelheceu. As dores daquela geração não tocam mais o coração. As canções são por demais melosas, chorosas. Mesmo as cenas com mensagens de secretária eletrônica reduziram-se a momentos graciosos.

O DVD vale como documento. Rent marcou uma época e, de uma certa forma, pode servir como um retrato. Mas, agora, na linha final, sou tomado por uma dúvida crucial: quem de fato envelheceu, o musical ou eu?

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