Poesia em estado puro
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Poesia em estado puro

Ubiratan Brasil

09 de outubro de 2010 | 20h00

Um close de senhor Juan Gelman  Uma das vantagens que vejo em minha profissão é ter a chance de conhecer ou, ao menos, de me aproximar de pessoas que admiro. Foi o que aconteceu hoje, sábado, aqui em Frankfurt, durante a Feira do Livro. Fui ao pavilhão argentino assistir à palestra do poeta Juan Gelman. Trata-se de um dos maiores nomes da poesia em língua espanhola contemporânea. Infelizmente, temos apenas uma obra sua publicada em português (ao menos do que tenho notícia): “Amor que Serena, Termina?”, publicado pela Record em 2001, com tradução de Eric Nepomuceno.

Como muitos outros, Gelman sofreu muito por conta da ditadura militar, que o obrigou a viver muitos anos no exílio – ainda hoje ele vive no México. Mas obviamente o talento venceu a brutalidade e sua poesia era divulgada, ainda que em segredo, mimeografada. E, nos últimos anos, ele vem recebendo o devido reconhecimento da crítica de seu país. Aqui em Frankfurt, por exemplo, ele representa todos os escritores que vieram à Alemanha, tornando-se seu porta-voz.

O que lhe parece uma tarefa um tanto difícil. Aos 80 anos, voz rouca de quem fuma há anos, Gelman é um homem de poucas palavras. É aquele tipo reservado, que só se sente à vontade em meio a amigos de fato, de longa data. Assim, diante de uma plateia de aproximadamente 150 pessoas, ele falou, mas pouco. Na verdade, sua voz é forte e retumbante na poesia, gênero para o qual revela uma infinita capacidade.

Um exemplo, para deliciar a alma, vejam aqui o poema ‘o jogo que jogamos’, na tradução de Nepomuceno:

Se me dessem para escolher, eu escolheria

esta saúde de saber que estamos muito enfermos,

esta dita de andar tão infelizes.

Se me dessem para escolher, eu escolheria

esta inocência de não ser um inocente,

esta pureza em que ando por ser impuro.

Se me dessem para escolher, eu escolheria

este amor com o qual odeio,

esta esperança que come pães desesperados.

Acontece, senhores, que aqui

aposto a minha morte.

Meu prazer foi ter trocado umas poucas palavras com esse homem e conseguir um autógrafo no meu livro. Graças a homens como Gelman que acredito na eternidade.

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