Peças ‘Network’, com Bryan Cranston, e ‘Rei Lear’, com Glenda Jackson, fazem pensar sobre o valor da arte
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Peças ‘Network’, com Bryan Cranston, e ‘Rei Lear’, com Glenda Jackson, fazem pensar sobre o valor da arte

Ubiratan Brasil

18 de abril de 2019 | 11h00

Ver dois espetáculos impactantes no mesmo dia é um privilégio, mas também um desafio emocional. Afinal, a arte tem o maravilhoso dom de nos arrancar do cotidiano e fazer seu pensamento voar para lugares inimagináveis. Foi assim que me senti nesta quarta-feira, 17, dia de Alessandro, quando assisti a Network, com Bryan Cranston, e a King Lear, com Glenda Jackson, ambos em cartaz na Broadway. Além da presença notável desses dois artistas, suas peças são um convite à reflexão.

Network é inspirada no filme dirigido pelo grande Sidney Lumet, em 1976. Chamado no Brasil de Rede de Intrigas, o longa narra a tensa decisão de um famoso apresentador de telejornal que, depois de ser despedido após 25 anos na emissora, anuncia, ao vivo e em rede nacional, que vai se matar. Inicialmente reprovada, a atitude do jornalista logo é encampada pela direção da emissora, entusiasmada com o crescimento vertiginoso de audiência e repercussão em outras mídias. O objetivo é faturar o máximo possível em cima da desgraça. No elenco primoroso, destaque para Faye Dunaway, William Holden e Peter Finch, que ganhou um Oscar póstumo de melhor ator coadjuvante.

Network. A parafernália de um estúdio de TV forma o cenário. Foto Jan Versweyveld

Essa atitude sensacionalista do jornalismo já rendeu outros grandes filmes, bastando lembrar uma obra-prima, A Montanha dos Sete Abutres, que Billy Wilder dirigiu com Kirk Douglas, em 1951. Com um roteiro fulminante de Paddy Chayefsky, Network explorou, naquela década de 1970, a fúria populista de uma sociedade pós-Nixon, desconfiada de qualquer forma de autoridade. Lumet e Chayefsky buscavam, com sua sátira impiedosa, mostrar aos americanos como suas almas estavam sendo devoradas pelas grandes emissoras de televisão, que impunham uma nova mentalidade com seus programas.

A adaptação para o teatro mantém a emissora de televisão como pano de fundo e também ambienta a história nos anos 1970. Mas, se a TV hoje já não tem a mesma força que há 40 anos, a adaptação feita por Lee Hall é inteligente ao se aproveitar do uso que hoje se faz de várias telas (celular, tablet, computador, a própria TV) para mostrar como a vida se transformou em um imenso reality show. A imersão é tamanha que há uns poucos lugares no palco que são vendidos, dando direito do privilégio de ver a montagem em detalhes. Bryan Craston vive o âncora que anuncia ao vivo o próprio suicídio, mas o sucesso em que ele se transforma (também viralizado pela direção da emissora) o leva para um messianismo que terá uma trágica consequência.

A produção da peça é fabulosa – telas estão espalhadas por todo o teatro, permitindo que o espectador, principalmente aquele sentado em um lugar que permite ver tudo, consiga assistir todos os detalhes, em close. Em diversos momentos, inconscientemente presta-se mais atenção na tela que na própria encenação, que acontece ali, ao vivo. É daí que vem o brilho de um ator como Craston que, com experiência em séries e cinema, sabe lidar com a câmera e, principalmente, com o close, algo que o teatro convencional não oferece.

O mundo também é confuso em King Lear, o Rei Lear, a mais sombria peça de Shakespeare – e a veterana Glenda Jackson, no papel principal, parece estar ali para botar ordem na casa. Considerada a mais trágica das tragédias shakespearianas, Rei Lear é o desafio máximo de qualquer ator. Vaidoso, Lear resolve dividir suas terras entre as filhas, em troca de elogios que a caçula, Cordélia, se recusa a fazer, por não ser hipócrita. Deserdado pelas outras, Goneril e Regane, Lear enlouquece e, por fim, atinge a sabedoria.

King Lear. Glenda Jackson, durante a turnê em Londres. Foto Manuel Harlan

O espetáculo é um desafio para o espectador pouco habituado a trabalhos mais absorventes, pois tem 3h30 de duração, com 20 minutos de intervalo. Só o primeiro ato tem exatos 120 minutos. Mas a presença luminosa de Glenda em cena, vestindo um terninho de corte antigo e cabelos curtos, oferece uma interpretação antológica. Como Lear, ela mostra aos poucos a desintegração de um poder e, de resto, também a quebra de um homem que se julgava imbatível. Glenda faz isso principalmente no uso da voz – inicialmente baixa, confiante, vai se tornando gritada, angustiada, quase um uivo, à medida que o poder se esvai entre seus dedos.

De quebra, a produção tem um quarteto de cordas que executa, ao vivo, uma trilha sonora especialmente composta por Philip Glass. Definitivamente, um luxo.

Em um momento em que a produção cultural no Brasil perde apoios importantes, tal atitude se torna ainda mais desesperadora quando se assiste a esses .esespetáculos na Broadway. Seja com enorme pirotecnia (como acontece em Network), seja apostando unicamente na palavra (King Lear), as duas produções mostram que a arte engrandece o homem ao privilegiar aquilo que o distingue dos demais seres vivos: fazer pensar.

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