Peça ‘Existo!’ é imperdível para almas sensíveis
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Peça ‘Existo!’ é imperdível para almas sensíveis

Ubiratan Brasil

20 de junho de 2019 | 20h32

A peça Existo! estreou no Sesc Ipiranga para uma curta temporada. Uma pena, pois se trata de um dos melhores espetáculos em cartaz em São Paulo. O público alvo é o infantil, daí o horário matutino e, na próxima semana, a presença de escolas. Mesmo quem não gosta de dividir espaço com crianças barulhentas deveria engolir em seco e assistir ao espetáculo. É uma experiência inesquecível.

Com direção de Cris Lozano e dramaturgia de Alessandro Hernandez, Existo! é uma delicada alegoria sobre a liberdade que todas as pessoas deveriam ter de fazer suas escolhas pessoais, mesmo que isso contrarie os padrões sociais – especialmente os que nos definem apenas como homens e mulheres.

Sensível. Ana Paula Lopez e Alessandro Hernandez, em cena de ‘Existo!’. Foto Nilton Fukuda/Estadão

Alessandro vive Luan, menino que mora em uma torre à espera do momento de poder sair e descobrir o mundo que conhece apenas pela janela – seu maior desejo é compartilhar momentos de diversão com meninos e meninas que vê em uma escola. Andar em uma roda-gigante promete ser o prazer máximo.

Enquanto aguarda ansioso tal momento, que será sinalizado quando uma jabuticabeira estiver carregada de frutos, Luan exerce sua liberdade em recinto fechado. A única pessoa com quem mantém contato é sua mãe que, apesar de alimentar suas ambições, fica constrangida com os questionamentos do garoto – como a decisão de usar vestido ou mesmo de se transformar em uma menina.

Em seu quarto, Luan pratica as várias formas de viver que pretende por em prática ao deixar a torre. E, nesses testes, ele se relaciona com um pombo cego, um jacaré que pode ser uma jacaroa e uma lagartixa bocuda. São momentos maravilhosos para se mostrar que o mundo é recheado de diversos tipos de pessoas, que podem ou não nos aceitar.

Se Alessandro é comovente ao mostrar a ansiedade infantil de Luan, marcada por uma indisfarçável pureza, os papeis da mãe e dos três bichos são defendidos com rara comicidade por Ana Paula Lopez, atriz que revela um incrível domínio dos recursos de um bom artista.

Se no espetáculo anterior apresentado pelo trio (Cristina, Ana Paula e Alessandro), Salve, Malala!, a urgência política parecia dominar o tom, trazendo momentos de rara beleza na defesa do direito das crianças de frequentarem uma escola, aqui, em Existo!, os caminhos são mais tortuosos, a ambiguidade é mais presente. Em Malala, o discurso era uníssono; em Existo!, tudo pode ser ou pode não ser.

Dessa vez, também, a trilha sonora tem uma presença quase física, tornando-se em mais um personagem, sem ser decorativa. Criada por Dr Morris, a trilha dá o tom às cenas e auxilia o trabalho de atuação.

Novamente, o cenário e os figurinos (assinados por Eliseu Weide) são essenciais no trabalho do grupo, a Cia La Leche: a surpresa inicial provocada pelas cores e contornos logo se apazígua, cedendo espaço para o conforto da elegância.

Elegante também é a direção de Cris Lozano, que tempera com raro equilíbrio a necessidade lúdica de uma peça infantil com a urgência de se contar uma história necessária para as crianças, muito distante de um conto da carochinha.

Existo! continua em cartaz no Sesc Ipiranga nos dias 23/6 (domingo), às 11h. E, durante a semana seguinte, será possível ver na terça (25/6), quarta (26/6) e quinta (27/6), com duas sessões por dia, às 10h30 e às 14h30. Tempo escassíssimo para um trabalho tão delicado e necessário, algo surpreendente até para um Sesc, onde as temporadas são curtas – mas não curtíssimas.

O grupo segue depois para outra unidade, a de Santo André. Muito justo, mas é urgente que volte com mais folga para São Paulo – e, quem sabe, uma excursão pelo interior do Estado.

Existo! promove o raro encontro da delicadeza com a urgência

 

 

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