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Os musicais de 2010

Ubiratan Brasil

04 de dezembro de 2010 | 11h19

No final do ano, é tradicional o surgimento de listas de melhores (e até de piores). É inegável a atração que esse tipo de escolha exerce sobre as pessoas, mesmo quem é contra listar o bom e o mau da produção cultural. Pretendo dar meu pitaco e eleger os livros que mais gostei ao longo de 2010. Como ainda estou na leitura de alguns potenciais candidatos, fico por enquanto com a lista dos musicais encenados em São Paulo e também no Rio, já que não teremos mais nenhuma novidade até o início de 2011. Assim, minha lista é a seguinte:

MELHOR MUSICAL – HAIR. Sem dúvida alguma é o melhor musical do ano. A mais recente produção de Charles Möeller e Claudio Botelho confirma sua maturidade e pleno domínio das técnicas exigidas por um musical. Hair consegue a proeza de ser atual sem se esquecer do momento que o inspirou, ou seja, a Guerra do Vietnã. Também traz figurinos daquela época mas com um toque que os deixa atuais. As músicas tornaram-se clássicas, portanto, também não defasaram. Mas, o mais importante é o elenco – é normal qualquer musical apresentar algumas falhas ali e aqui de interpretação no chamado segundo elenco, uma vez que apenas os personagens principais têm a obrigação de brilhar. Mas em Hair há uma impressionante homogeneidade de interpretação, canto e dança que, não fosse a própria trama definir os protagonistas, seria possível apontar a todos como principais. Fãs de São Paulo que não podem assistir no Rio precisam conter a ansiedade até a estreia na capital paulista, talvez em março, no Teatro Bradesco.

MELHOR ATRIZ – TOTIA MEIRELES (GYPSY) E KIARA SASSO (MAMMA MIA!). Um empate inevitável, duas atrizes que ultrapassaram as expectitativas em seus respectivos papeis. Primeiro Totia, incomparável como Rose, a mãe controladora e sonhadora. Vê-al em cena permite entender melhor o significado da expressão francesa ‘tour de force’. Totia navegou com tranquilidade na comédia e no drama, cantou como uma diva e também quase à capela, emocionou e provocou gargalhadas, enfim, não deixou escapar nenhum detalhe de seu complexo personagem. Sua interpretação tornou-se lendária, uma verdadeira aula para quem sonha vencer nesse tipo de papel.

Kiara já demonstrara seu talento em outros musicais, mas não se acomodou em Mamma Mia! Na verdade assumiu desafios ao aceitar um papel que aparentemente seria para uma atriz mais velha que ela. Também enfrentaria a difícil concorrência com Meryl Streep, que fez o mesmo personagem no cinema – inconscientemente, o espectador traz a sua imagem gravada na mente quando chega ao teatro. Kiara superou as duas adversidades e apresenta uma impressionante performance. Para mim, seu maior mérito está na forma interpretativa como canta: as músicas do ABBA são conhecidas, mas ela faz com que a letra seja compreendida e inserida na trama, o que, de resto, é a essência de um bom musical. Só por ela, valeria ver Mamma Mia!

ATOR – NANDO PRADO (O MÉDICO E O MONSTRO). Mais um exemplo de superação. Nando, por conta de seu talento vocal e sua bela presença em cena, normalmente é requisitado para papeis de mocinho – em O Fantasma da Ópera, ele até fez um vilão, mas não abriu mão daqueles dotes. Já em O Médico e o Monstro, uma produção soturna e exemplarmente realizada (figurinos e cenário notáveis), Nando tanto era o mocinho como o vilão. E a transformação acontecia com uma nova postura corporal, um cabelo desalinhado e uma voz mais gutural. Para alguns, era pouco, mas fiquei convencido, graças à energia conferida por Nando. Ele é extremamente talentoso e, embora se sinta atraído a se tranformar em cantor profissional de fato, acho que deveria explorar suas virtudes e tentar papeis fora do propósito, que vão consolidar seu talento.

REVELAÇÕES – MARCELO PIRES (BARKS E HAIR) E  ANDRE TORQUATO (GYPSY). Dois garotos sobre quem logo vamos ouvir, falar e escrever muito. Marcelo tornou-se revelação de fato em ‘Barks – Um Latido Musical’, pequena produção bravamente comandada por João Federich que trouxe muita graça ao meio musical. Marcelo fez um dos cachorros, Rocks, com uma garra impressionante. É admirável vê-lo em cena, com desenvoltura, e também é ótimo ouvi-lo, pois já se apresenta como um intérpretede qualidade. Em Hair, ele faz um papel pequeno, mas, como escrevi antes, o elenco como um todo é superior, o que permite Marcelo também deixar sua marca. Eis um ator a se observar.

Andre parecia ser apenas um figurante em Gypsy mas, quando chega seu número, em que canta, dança e, principalmente, sapateia ao lado de Adriana Garambone (outra atriz que mantém a extrema qualidade do musical brasileiro), é como que se uma luz acendesse no firmamento. Sua técnica é invejável mas, acima disso, Andre sabe representar, o que o deixa em posição admirável. Eis outro nome a se acompanhar com lupa.

MELHOR DIREÇÃO – JORGE TAKLA (O REI E EU) E CHARLES MÖELLER/CLAUDIO BOTELHO (GYPSY E  HAIR). Charles e Claudio continuam se superando. Não bastasse seu imenso conhecimento sobre musicais, eles têm a coragem de emendar um título atrás do outro, sempre com o mesmo nível de qualidade. Isso permite ainda que aprimorem seu trabalho, oferecendo surpresas como essas joias que são Gypsy e Hair.

Jorge também é um conhecedor refinado de musicais – basta observar a elegância de todas suas produções. O Rei e Eu ofereceu aos fãs um exemplo de como se organiza uma produção clássica, com figurinos e cenários deslumbrantes. E ainda trazia Claudia Netto excepcional no papel da professora inglesa, outra interpretação digna de nota, tanto pelo refinamento na encenação e como pelo talento vocal.

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