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Os Altruístas

Ubiratan Brasil

25 de setembro de 2011 | 22h53

Acabo de assistir à peça “Os Altruístas”, com texto de Nicky Silver, direção de Guilherme Weber e um elenco maravilhoso, capitaneado por Mariana Ximenes e com Kiko Mascarenhas, Jonathan Haagensen, Miguel Thiré e Stella Rabello. Minha satisfação correspondeu às expectativas: sou um grande admirador do texto ágil, verborrágico, violento, sexy e inteligente de Silver, que nos foi apresentado por Weber e Felipe Hirsch em montagens maravilhosas como Os Solitários e Pterodátilos.

Novamente, aqui nenhuma convenção consegue parar em pé: do casamento ao homossexualismo, do sexo vendido à política, o mundo, para Nicky Silver, é cínico e com cinismo deve ser enfrentado e deglutido. Quem não conhece nada de seu trabalho certamente vai estranhar, no final, tal títulos, altruístas – todos os personagens são de tudo um pouco, menos altruístas. Egoístas, na verdade.

É elogiável que Mariana Ximenes não se acomode no sucesso conquistado na televisão e se aventure nessa selva, em que o consumismo (lembrando Pterodátilos) e a preocupação consigo mesmo são os únicos interesses desses homens e mulheres. Mariana exibe um incrível vigor para disparar seu texto que parece infinito, alternando humor com violência de forma natural. Certamente, é mais uma atriz no panteão das grandes intérpretes de Nicky Silver no Brasil, ao lado de Mariana Lima e Marieta Severo.

Impossível não elogiar também Kiko Mascarenhas. Seus trejeitos homossexuais não são exagerados, apesar do papel ser espalhafatoso. Há um incrível controle dos gestos que o deixam perfeito em cena, apesar de tanta exuberância do personagem.

Jonathan está encantador como um michê, a ponto de toda sua musculatura parecer frágil, quebradiça, como se ali estivesse uma contradição: como um homem tão forte pode ser tão destrutível?  Mérito semelhante ao de Miguel Thiré, cuja frieza determina aquele que talvez seja o pior dos personagens: o narcisista em grau máximo, interessado apenas no bem pessoal. E Stella Rabello interpreta o mais triste dos altruístas, a lésbica que pensa, acima de tudo, no amor. Ou melhor, que o descobre justamente quando já o perdeu.

Guilherme Weber comprova total domínio com a dicção pedida por um texto de Nicky Silver. Seu timing para a comédia é o mesmo para o escatológico, apresentando fraquezas exageradas como se fosse algo totalmente corriqueiro. O pior é que é… A decisão de manter todos os atores em cena foi acertada pois não prejudica o ritmo, que só funciona se for hipnotizante. Sua estreia como diretor foi milimetricamente acertada.

Pouco se pode dizer do cenário pensado por Daniela Thomas – uma vez mais ela comprova ser uma das melhores profissionais do Brasil, unindo beleza estética com funcionalidade. E, o que é melhor, surpreendendo sempre.

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