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O minimalismo de Carver

Ubiratan Brasil

13 de setembro de 2010 | 13h29

Raymond Carver não gostava de ser chamado de escritor minimalista. O rótulo surgiu por conta de sua escrita enxuta, contida. De fato, desculpem o trocadilho mas isso apenas miniminiza um trabalho apurado, pensado, que parece simples mas não é.

Na edição do Sabático dessa semana, escrevi sobre o livro 68 Contos, que a Companhia das Letras lançou recentemente. São histórias sensacionais, que incomodam porque tratam de situações inusitadas como se fossem corriqueiras. Em uma delas, um desempregado espera ansiosamente uma carta com proposta de emprego. De repente, bate na porta um homem misterioso, gordo, que, a pretexto de um prêmio oferecido por uma revista, faz uma limpeza completa no tapete da casa, com um novo aspirador de pó.

Durante a limpeza, uma carta é colocada por debaixo da porta pelo carteiro. Momento de tensão. O envelope é recolhido pelo homem gordo que, terminado seu serviço, vai embora. O dono da casa não esboça nenhuma reação.

São textos como esse que retratam o cotidiano, considerado por Carver como “a mais completa derrota do sonho americano”. Como nos retratos de Hopper, a tristeza existe mas não predomina por conta da força da imagem, recriada em tons pasteis. Terminada a leitura, fica uma sensação de amargor que luta contra o encantamento provocado pela beleza do texto. Carver morreu em 1988 mas continua atual, de tirar o fôlego. O livro vale a pena

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