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O Estrangeiro

Ubiratan Brasil

10 de novembro de 2010 | 11h18

Assisti ao monólogo ‘O Estrangeiro’, inspirado na obra de Albert Camus, que está em cartaz no Teatro Eva Herz, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, aqui em São Paulo. Guilherme Leme vive Meursault, homem que leva uma vida banal até receber a notícia de morte da mãe. Em seguida, sua rotina se transforma, ele comete um crime, é preso, julgado, tudo gratuitamente, sem sentido.

O livro possui duas características literárias que marcaram o autor: uma filosofia sobre o absurdo e a relação com o existencialismo francês. Só por isso, a tarefa de levá-lo ao palco se transforma em um desafio. Mas, pode-se dizer que o resultado é plenamente satisfatório.

Como Meursault é um personagem que não encontra explicação na fé, religião ou ideologia para seu problema e tampouco tem onde se amparar, a primeira dificuldade seria encontrar uma teatralidade em sua ação. Afinal, trata-se de um homem que busca se manter racional diante do absurdo, aceitando o destino que lhe impõem.

Sob a direção de Vera Holtz, Guilherme Lemos apresenta bem esse personagem ao optar por um caminho arriscado, que é o de declamar longos trechos sem quase nenhuma ação física – apenas um mexer de cadeira, um cruzar de pernas. A voz torna-se a extensão de seu corpo. O que poderia resultar em algo monótono torna-se interessante justamente pela força do texto do Camus. E aí vai um elogio para a dupla, que soube segurar a tentação que muitas vezes ronda esse tipo de espetáculo e evitou uma atuação exagerada, que ocupasse todo o palco.

A frieza do personagem é compensada pela iluminação quente, acolhedora, belíssima de Maneco Quinderé. É impressionante o efeito provocado no espetáculo, possibilitando que o espectador crie o ambiente em sua imaginação. Só por essa combinação (atuação sóbria com iluminação criativa), o espetáculo merece ter a casa lotada, como vem acontecendo.

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