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O dilema dos musicais

Ubiratan Brasil

11 de setembro de 2010 | 13h28

  Sou fanático por musicais, tanto os do cinema como os que se apresentam nos palcos. Sempre que viajo a Nova York ou a Londres, tento assistir a algum novo, o mais badalado se possível. Também volto carregado de DVDs. Assim, quando começou a nova era dos musicais em São Paulo – gosto de colocar Les Misérables como ponto de partida, em 2000 -, tornei-me um assíduo frequentador, na plateia e nos bastidores, fazendo matéria sobre praticamente todas as estreias, das menores às grandiosas.

Aos poucos, fui conhecendo pessoas tão fanáticas como eu, responsáveis por grandes apresentações como a dupla Charles Moeller e Claudio Botelho no Rio e Jorge Takla em São Paulo. Claro, há mais nomes, mas prefiro me reduzir a eles pois são os que entendo como principais divulgadores do musical aqui, arriscando-se financeiramente em montagens que nem sempre trazem o devido retorno.

Charles e Claudio são responsáveis por momentos memoráveis, como a montagem de Company, assistida pelo próprio autor, o grande Stephen Sondheim, no Rio, uma honra sem tamanho. É deles também a concepção de uma montagem que ainda está em cartaz em São Paulo no teatro Alfa, Gypsy, que considero o melhor espetáculo musical já realizado nessa nova era, pós Les Mis. Sim, é preciso ver para crer. E a principal responsável é a protagonista, Totia Meireles, que se apresenta com uma garra invejável no papel da mãe dominadora. Totia não apenas canta bem, como ainda é ótima na comédia e não perde o fôlego no drama. Em cena, ela é uma leoa, um furacão, capaz de lavar a alma de qualquer cidadão. Já a vi em cena duas vezes nesse musical e pretendo ver mais uma.

  Já Takla é responsável pelo bom gosto – impossível descobrir algo exagerado em seus espetáculos, um cenário cafona, um figurino brega. Ele tem a rara noção do que exatamente deve ser aplicado em cada cena. Sua última montagem, O Rei e Eu, comprova isso, um espetáculo profissionalíssimo.

  E, mesmo com tantos atrativos, Gypsy não atrai a quantidade de público que merece, enquanto O Rei e Eu teve de abreviar sua temporada, também por falta de pagantes. O que lança uma dúvida: o que aconteceu com a plateia paulistana de musicais? Desde o início dessa nova era (novamente, desde Les Mis), os paulistanos assumiram a condição de público ideal para os musicais, lotando os grandes teatros e, com isso, atraindo novas produções. O Rio, por falta de bons teatros, ficou em segundo plano, ainda que se saiba da existência de aficionados por lá.

  Mas, se A Bela e a Fera, O Fantasma da Ópera e My Fair Lady encheram os teatros, uma curva descendente começou a surgir há pelo menos dois anos. Com isso, o que despontava como sucesso certo, surpreendia com um fiasco na bilheteria. West Side Story, por exemplo, montado por Takla, não correspondeu – embora é preciso que se diga que o elenco era irregular, o que comprometia o rendimento final. Mesmo Cats, que já se tornou clássico (particularmente, acho datado), não foi tão fenomenal assim como se supunha. E parece que idêntida situação é sofrida por outra grande montagem, O Médico e o Monstro, ainda em cartaz.

  Tenho um palpite para isso. O público paulistano gosta, sim, de musicais, mas é preciso que algumas exigências sejam cumpridas. Primeiro, que a história seja conhecida. A Bela e a Fera foi um desenho de sucesso e isso já era meio caminho andado. Outro detalhe é fama consolidada. O Fantasma da Ópera chegou aqui como o musical que os brasileiros mais buscavam na Broadway, ou seja, um fracasso seria a maior surpresa do ano.

  Outro detalhe diz respeito à produção. Miss Saigon (que considero muito chato) ficou famoso pela tal cena em que um helicóptero em tamanho natural entrava em cena. A montagem paulistana, além de ter uma iluminação errada (era muito escura, difícil de se acompanhar), trouxe um helicóptero holográfico, que pouco ou nada entusiasmou.

  Assim, não adianta dizer que Gypsy é um dos maiores musicais da história – poucos, infelizmente, conhecem o talento de Totia Meireles, muito menos ouviram falar do próprio musical. Assim, para provar que o público não desapareceu, apenas está recolhido (o preço dos ingressos, é bom lembrar, não é nada atraente), eu aposto na próxima temporada como a grande chance de recuperação. É que grandes sucessos estão a caminho.

  Primeiro, Mamma Mia! deve substituir Cats, já em novembro. Quem viu lá fora, voltou encantado. E ainda o filme com Meryl Streep deixou muita gente cantando baixinho no cinema. Assim, acredito que as chances sejam boas. Já Takla se prepara para estrear Evita no início do próximo ano. É outro espetáculo já consolidado, seja pela música que se tornou tema, seja pela detestável versão cinematográfica, com Madonna e um Antonio Banderas no auge da canastrice (por que ele não ficou na Espanha, só filmando com Almodóvar). Acredito que o maior desafio para Takla seja selecionar a atriz principal. O ideal é alguém conhecido que saiba cantar. Sem ainda saber de nenhuma negociação, eu indicaria Daniele Winits, que já se saiu bem em Chicago (outro musical adorável). Acho que ela tem o perfil ideal para o papel.

 Finalmente, no Rio, meus queridos Charles e Claudio estão para estrear em outubro o mítico Hair. Quem apenas conhece o filme, terá a chance de realmente descobrir porque esse é um musical revolucionário. A nudez já não choca mais, o clima de guerra hoje é diferente, os hippies se tornaram sessentões, mas Hair mantém intacta sua mensagem de paz, além de uma coreografia soberba e músicas já eternas. Estou animadíssimo para acompanhar mais um trabalho da dupla, assim como o de Takla e a produção da T4Fun.

  É preciso ter sempre um leque de musicais em cartaz. Além de oferecer empregos a diversos profissionais do teatro, são uma forma diferente de arte, ao contrário do que julga boa parte da crítica, especialmente a paulistana, que vê o gênero como de segunda linha. Raramente algum profissional de musical é premiado, mas, a julgar pelas listas que tenho acompanhado de finalistas de prêmios tidos como importantes, creio que a decadência está instalada ali, e não no palco dos musicais. A miopia se instaurou nos olhos de quem se esperava visão infinita.

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