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O caso Jabuti

Ubiratan Brasil

15 de novembro de 2010 | 17h27

Fim de ano agitado. E com Chico Buarque como bode expiatório. Explico melhor: depois da entrega dos prêmios Jabuti e Portugal Telecom, a editora Record, por meio de seu presidente Sérgio Machado, enviou um comunicado que sua empresa não mais inscreveria livros na edição do próximo ano do Jabuti. O motivo foi a confusão provocada na entrega dos trofeus desse ano, que aconteceu na semana passada.

Para quem não se lembra, Chico Buarque surpreendeu ao comparecer à Sala São Paulo, local do evento. Sua presença indicava que ele ganharia o prêmio principal da noite, o Livro do Ano de Ficção. Ele já ficara em segundo lugar na categoria romance com seu ‘Leite Derramado’, colocação anunciada meses atrás. Assim, naquela noite ele receberia o Jabuti de segundo colocado – em primeiro, ficou Edney Silvestre, autor da Record.

Como todos os premiados são conhecidos previamente – só vão lá para receber o troféu -, a surpresa está na divulgação do Livro do Ano, tanto de ficção como de não-ficção. Nessa categoria, votam outros jurados, diferentes dos que escolhem o Jabuti. Ora, se Chico estava lá, não era para receber apenas o troféu de segundo colocado. Era evidente que ele seria o autor do Livro do Ano. Aliás, em 2009, quando cheguei para a premiação, comentei com o curador José Luiz Goldfarb: “Não sei quem vai ganhar neste ano mas, em 2010, será Chico Buarque”.

Não é exercício de futurologia, mas basta entender as razões do mercado. Como são livreiros e editores que votam, na maioria, no Livro do Ano, eles se baseiam em respostas comerciais. Também gostam de um toque de celebridade, a ponto de terem dado prêmios em outros anos para Chico. E foi o que aconteceu neste ano.

Alguns dias depois, o mesmo Chico compareceu à entrega do Portugal Telecom. Novamente, surgiu uma certeza: ele não vai apenas como participante, deve ser o vencedor. E foi o que aconteceu novamente.

Isso tudo provocou a ira de Sérgio Machado que, se foi criticado pois conhecia as regras, ao menos conseguiu movimentar o prêmio e, quem sabe, provocar mudanças para o próximo ano.

Conversei com alguns autores em Ouro Preto sobre o acontecido e gostei da resposta de Marina Colasanti, que reproduzo aqui: “esse desentendimento mostrou que existe uma confusão entre a razão de ser da cada prêmio e a valorização desse prêmio. A CBL reconhece que o Livro do Ano é um prêmo de mercado. Então, deveria ficar bem clara a distinção: Livro do Ano é um prêmio concedido ao bestseller enquanto o Jabuti seria um prêmio para a qualidade –  ainda que, às vezes, os dois coincidiriam. Se for assim, o valor de 30 mil reais não deveria ser pago ao Livro do Ano pois o premiado já tá faturando, como o próprio mercado está reconhecendo. E, sendo como é hoje, permite que se desconfie do juri do Jabuti, entendido até como burro. Assim é preciso ajeitar esse desequilíbrio de valores, tanto financeiros como de prestígio.”

Assino embaixo. Também acho errado utilizar a figura de Chico Buarque para resolver problemas particulares. Ele é um escritor de nível, concorreu com uma obra que tem méritos e, se venceu, não foi por marmelada. Admiro sua disposição em criar uma carreira literária e, embora tenha gostado mais de Budapeste (ainda seu melhor romance, em minha opinião), Leite Derramado é um livro bem escrito, de categoria.

Resta esperar que, baixada a poeira, algo seja feito. Porque, como está, não vai dar mais para ficar.

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