Musical ‘Jacksons do Pandeiro’ é um dos melhores trabalhos de um ano estranho
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Musical ‘Jacksons do Pandeiro’ é um dos melhores trabalhos de um ano estranho

Ubiratan Brasil

10 de outubro de 2020 | 22h01

A Barca dos Corações Partidos é uma companhia formada por artistas inquietos – suas experiências no teatro musical são decisivas para aprimorar o gênero no Brasil, pois sempre encontra e apresenta uma encantadora sonoridade nacional. Foi assim em Auê, Suassuna: o Auto do Reino do Sol e agora com Jacksons do Pandeiro, sexto trabalho do grupo que, por causa da pandemia, teve sua estreia transmitida pela TV e YouTube, neste sábado, 10, diretamente do teatro da Cidade das Artes, no Rio de Janeiro.

Trupe. A Barca dos Corações Partido em ‘Jacksons do Pandeiro’. Foto Renato Mangolin

Teatro tristemente vazio, é bom frisar. O coronavírus ainda continua letal demais para voltarmos ao tempo bom, quando certamente a sala estaria lotada, tornando o espetáculo ainda mais eletrizante. Certamente porque a Barca deu mais um passo largo em sua valiosa trajetória. Jacksons do Pandeiro, que tem a direção cênica de Duda Maia, revelou-se um esplendoroso espetáculo de televisão/internet, graças à opção de adaptar o musical à linguagem visual, ou seja, várias câmeras apresentavam desde detalhes que escapariam ao olhar do espectador que estivesse no teatro até a visão geral. Mérito da direção planejada e sensível de Diego de Godoy, que até instalou uma câmera no alto do palco, visão inusitada para quem frequenta teatro, mas que ajudava a marcar a passagem de cenas.

Jackson do Pandeiro morreu aos 62 anos, em 1983, quase tão esquecido como era em sua miserável infância vivida nas ruas de Alagoa Grande, na Paraíba. Mas deixou uma notável herança musical, que foi uma decisiva contribuição para a valorização dos ritmos nordestinos.

Daí a importância da pesquisa de Alfredo Del-Penho, que assina a direção musical com Beto Lemos – seu profundo conhecimento do vasto mundo rítmico deixado pelo paraibano permitiu que Jacksons do Pandeiro se transformasse em um espetáculo orgânico, que tanto narra a trajetória de seu homenageado como revela a riqueza de sua musicalidade.

Mesmo quem julga conhecer o talento da trupe da Barca dos Corações Partidos (como eu), ainda consegue se surpreender com as novidades cênicas apresentadas pelos artistas que, além de exímios musicistas, trazem a comicidade e até a fragilidade imposta pela tragédia. Isso torna o trabalho de Duda Maia ainda mais desafiante, o que valoriza sua vitória: apesar das câmeras espalhadas pelo palco, os intérpretes se apresentam para uma plateia mesmo vazia.

O que só aumenta a expectativa para se assistir como se deve, ou seja, pessoalmente, um espetáculo cheio de charme, estilo e energia. Depois de se assistir  emocionado pela TV às quase duas horas de Jacksons do Pandeiro, a torcida por uma vacina eficiente só aumentou. Certamente, já é um dos melhores trabalhos cênicos desse estranho ano, em que o teatro foi obrigado a se render à tortuosa fórmula limitante do streaming.

Aplausos de pé para a trupe formada por Adrén Alves, Alfredo Del-Penho, Beto Lemos, Eduardo Rios, Fábio Enriquez, Renato Luciano e Ricca Barros, além dos maravilhosos artistas convidados Everton Coroné, Lucas dos Prazeres e Luiza Loroza. O texto preciso de Braulio Tavares e Eduardo Rios, a já elogiada direção de Duda Maia e a indispensável produção de Andréa Alves, cuja tenacidade em manter vivo o trabalho da Barca só pode receber elogios e agradecimentos eternos.

Tendências: