As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Murilo Rubião

Ubiratan Brasil

17 de outubro de 2010 | 20h29

  Estreou, no Teatro Tuca, em São Paulo, uma peça inspirada em contos de Murilo Rubião. Confesso que fiquei receoso ao assisti-la pois se trata de um escritor fenomenal, com uma obra alicerçada basicamente no texto fantástico, uma raridade em nossa literatura. Mas fiquei plenamente satisfeito com ‘O Amor e Outros Estranhos Rumores’.

A peça é a adaptação de três contos de Rubião (1916-1991), escritor em cuja escrita o real e o irreal convivem plenamente. Se inicialmente provoca uma certa surpresa, aos poucos o texto envolve o leitor graças à sua maestria e, ao final, o absurdo torna-se plenamente aceitável. Não se trata, porém, de mera fantasia – Rubião a utilizava como ferramenta para criticar a sociedade e também ressaltar os grandes dramas da existência humana. É o que se encontra em obras como ‘O Pirotécnico Zacarias’ e ‘O Ex-Mágico’, entre outras.

Assim, é fácil encontrar um homem conversando normalmente com um coelho, que se metamorfoseia a cada instante. Ou ainda um mágico que pretende ser devorado pelos leões que saem de seu bolso. Tudo encarado com maior normalidade. Veja esse trecho de ‘Os Dragões’: “Regressando, uma noite, de uma reunião mensal com os pais dos alunos, encontrei minha mulher preocupada: João acabara de vomitar fogo. Também apreensivo, compreendi que ele atingira a maioridade”.

O espetáculo dirigido por Yara de Novaes acerta em cheio ao respeitar o limite que essa escrita fantástica pode chegar ao palco. Diretora de outra bem sucedida adaptação de um livro para o palco (“As Meninas”, de Lygia Fagundes Telles), Yara soube como materializar o absurdo e especialmente a inadequação do existir, que são questões primais na obra de Rubião.

Outro acerto fundamental foi o uso correto dos recursos cênicos, ou seja, a música e a iluminação auxiliam de forma decisiva o clima aparentemente fantástico daqueles homens que, de posse de um bilhete de trem que não determina dia, hora e tampouco o destino da viagem, buscam avidamente por uma resposta. Melhor ainda, por uma saída.

O essencial na transposição da obra era que o absurdo tivesse lógica e, principalmente, fosse rapidamente aceitável. No universo criado por Rubião, o homem é o ser carregado de vício, preconceito e desamor, e não os personagens fantásticos, como dragões e coelhos falantes.

Com um elenco excepcional (Débora Falabella, Maurício de Barros, Priscila Jorge e Rodolfo Vaz), Yara de Novaes continua com sua importante e vital pesquisa cênica da literatura brasileira, sempre reunindo ingredientes vitais: obras complexas que ganham uma versão inteligente e instigante. A montagem que ocupa a sala grande do Tuca é imperdível.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: