Mostra de Cinema de Gostoso retoma exibições na praia
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Mostra de Cinema de Gostoso retoma exibições na praia

Ubiratan Brasil

28 de novembro de 2021 | 09h35

A volta de eventos culturais presenciais, ainda que sob proteção sanitária, permitiu a retomada de interessantes projetos, como o da Mostra de Cinema de Gostoso. Realizado na cidade potiguar de São Miguel do Gostoso, que fica a 102 km da capital Natal, o evento tem uma particularidade que o torna único: as sessões são realizadas à noite, na praia, onde é montada uma estrutura com tela e cadeiras colocadas na areia. Assim, é possível assistir a longas e curtas sob uma agradável brisa do mar e um céu muito estrelado.

Com a direção e curadoria de Eugênio Puppo e Matheus Sundfeld, a Mostra estreou na sexta, 26, sua oitava edição, com a exibição de Marighella, de Wagner Moura – antes, foi mostrado o curta Papa-Jerimum, dos jovens Clara Leal e Harcan Costa, que fazem parte do Coletivo Nós do Audiovisual, formado por alunos de formação dos cursos educacionais organizados anualmente pelo evento. Essa é outra importante diferenciação do festival: não são exibidas apenas produções de outras localidades, mas também as da região, frutos desse trabalho de formação que prepara profissionais para os diversos pontos da cadeia de produção de um longa.

Exibição de filme na praia, durante a Mostra de Cinema de Gostoso. Foto Mostra de Cinema de Gostoso

Assim, se Marighella já é um filme conhecido e até consagrado, Papa-Jerimum tem o poder de apresentar a figura de Leonardo, ex-navegador que foi pioneiro na cidade de São Miguel do Gostoso, criando a primeira pousada do município e até dando nomes às ruas. A direção de Clara e Harcan é respeitosa ao homenageado, recentemente falecido, mas traz indícios de uma formação da linguagem cinematográfica que são perceptíveis na narrativa fluida.

A exibição dos dois trabalhos foi acompanhada por mais de 2 mil pessoas, que ocuparam todas as cadeiras e também se instalaram nos espaços de areia ao redor. E ambos receberam verdadeira aclamação, pois trazem aspectos da história das pessoas, seja em aspectos muito locais (como a história de Leonardo) seja de um momento crucial do Brasil, como foi o da ditadura militar, quando opositores se transformaram em guerrilheiros para combater os abusos do regime de exceção. A plateia na praia reagiu como outras diversas, em salas fechadas de cinema ao redor do País: com críticas ao atual presidente da República.

A identificação continuou no dia seguinte, sábado, 27, quando foi exibido Sideral, belíssimo curta de Carlos Segundo, rodado no Rio Grande do Norte. Trata-se da história da mulher faxineira que, cansada das agruras da vida passada a lado do marido mecânico e de dois filhos, decide se esconder dentro do primeiro foguete brasileiro a ser enviado ao espaço. Bem sucedida, Marcela ficará longe da Terra durante dois anos – na verdade, estará distante de seus problemas terrenos.

O curta é precioso por mostrar detalhes significativos da aborrecida rotina da mulher, do machismo do marido e, melhor, por tratar com seriedade de algo completamente insano: uma pessoa conseguir se esconder dentro de um foguete para fugir da opressão cotidiana. É como se apenas o espaço lhe oferecesse a liberdade que falta na Terra. Apesar de risível, tudo é mostrado como sendo algo factível, o que confere ainda mais força ao trabalho, exibido no Festival de Cannes. O riso da plateia é nervoso, pois, no fundo, apresenta um problema conhecido: as dificuldades das mulheres.

A programação do sábado foi concluída com outros dois trabalhos que também mostram insatisfações pessoais em diferentes graus. No curta Portugal Pequeno, de Victor Quintanilha, o adolescente Jonatan espera se consagrar como MC Xerelete para melhorar a vida que tem como pescador na baía de Guanabara, ao lado do pai. E o longa Cabeça de Nêgo, de Déo Cardoso, é uma poderosa narrativa sobre Saulo, estudante que denuncia a situação degradante de sua escola, fruto de uma administração corrupta.

Ao contrário de outros colegas, Saulo é politizado e se baseia na pacífica doutrina da ativista americana Angela Davis pelos direitos sociais, especialmente os dos negros. Ao sofrer um xingamento racista, Saulo decide não mais sair da sala de aula, o que desencadeia uma ameaça à estrutura viciada comandada por um péssimo diretor de escola. Com isso, os colegas de Saulo se mobilizam em seu favor, acampando à frente da instituição de ensino.

O final, que não cabe aqui ser revelado, revela como é o resultado, no Brasil, do confronto entre forças antagônicas e de diferentes graus de poder, com a corda sempre sendo roída do lado do mais fraco. Como aconteceu ao final da exibição de Marighella, Cabeça de Nêgo foi ovacionado pelo público que resistiu até a uma chuva passageira.

“A pandemia do coronavírus foi e tem sido um grande trauma coletivo, que levaremos algum tempo para conseguir absorver e superar. Mas estamos convictos de que é preciso aproveitar este momento para reafirmar nossos objetivos e a convicção de que o cinema, ou melhor, uma sala de cinema ao ar livre em uma praia belíssima, pode ser uma ferramenta útil para lidar com essa angústia e promover uma profunda transformação social”, escrevem Eugenio Puppo e Matheus Sundfeld, no texto de apresentação do programa do festival. E, a julgar pela reação da plateia, os passos continuam sendo dados.

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