Morre Ann Reinking, atriz e dançarina especialista no estilo Bob Fosse
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Morre Ann Reinking, atriz e dançarina especialista no estilo Bob Fosse

Ubiratan Brasil

15 de dezembro de 2020 | 20h28

Foi uma morte serena – a atriz, bailarina e coreógrafa americana Ann Reinking morreu dormindo, no sábado, 12, enquanto visitava a família em Seattle. Estava com 71 anos. “Ela estava visitando nosso irmão no estado de Washington quando foi dormir e nunca mais acordou. Vamos sentir mais falta dela do que podemos dizer. O céu agora tem a melhor coreógrafa de todas. Tenho certeza de que eles estão dançando como uma tempestade lá em cima! Annie, sempre vamos te amar e sentir sua falta!!!”, diz um comunicado de sua família.

Ann Reinking foi, ao lado de Gwen Verdon (1925-2000), uma das mais respeitadas artistas do musical americano contemporâneo. Além disso, elas tinham em comum o amor do coreógrafo e diretor Bob Fosse (1927-1987), como mulheres e como artistas, escalando-as para papéis inesquecíveis nos palcos e nas telas.

Dupla genial. Ann Reinking e Gwen Vernon ensaiam o musical ‘Fosse: A Celebration in Life and Dance’, em agosto de 1998. Foram as principais discípulas de Fosse. Foto Fred R. Conrad/ The New York Times

Gwen se casou com Fosse em 1960, sendo sua terceira mulher. Eles se separaram, mas jamais se divorciaram na arte, mantendo amizade e colaboração. Gwen viveu no palco a inesquecível Charity em Sweet Charity, em 1966, um verdadeiro triunfo. Em 1987, Fosse desmaiou nos braços dela numa esquina, atingido por seu terceiro e fulminante ataque cardíaco.

Segundo o biógrafo de Fosse, Martin Gottfried, Ann Reinking, companheira do coreógrafo nos anos 1970, foi talvez a mulher mais próxima dele, fora do círculo familiar. Verdadeira alma gêmea. No palco, ela atuou em Chicago (1977) e num revival de Sweet Charity (1986). Também coreografou e estrelou uma montagem de Chicago que esteve há pouco tempo em cartaz na Broadway. E, no musical em homenagem a seu mestre, Fosse, ela aparece como codiretora e uma das coreógrafas.

Ann Reinking e Gwen Verdon traduziam com precisão a coreografia criada por Fosse, algo extremamente teatral e recheado de movimentos únicos. O diretor e ex-bailarino Stanley Donen definiu com rara felicidade o trabalho de Fosse: “Seus movimentos são pequenos e carregados de significado, que contrastam com gestos violentos – a maneira como usa as mãos, como segura seu chapéu, com o pulso contra a testa; Fosse brilhava no que outras pessoas chamariam de posições deselegantes, mas que ele tornava maravilhosas e cheias de estilo”.

Basta ver Ann atuando no filme All That Jazz (1979), o derradeiro testamento de Fosse, para saber o que isso significa. Mas seria injusto classificar o trabalho de Ann Reinking como apenas fiel mantenedora de um estilo clássico da coreografia de musicais. A partir do que aprendeu com Fosse, ela aprimorou o estilo, adaptando-o aos movimentos cada vez mais vibrantes dos musicais dos anos 1990 e 2000, marcados por níveis de energia, transições e enorme intensidade, mas, o que é essencial, Ann sabia manter a sofisticação.

Guilherme Logullo que, além de grande ator, diretor e produtor de musicais, é grande devorador de pastéis de feira (como seus divertidos posts no Instagram denunciam), fez uma excelente entrevista em vídeo com Ann Reinking, em novembro, e que se tornou agora sua conversa gravada com um artista brasileiro. Uma delícia, mas com gosto de amargura. Recomendo que todos vejam: https://youtu.be/k9DLp-zfctk