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Minhas lembranças do atentado a bomba na Olimpíada de Atlanta, em 1996

Ubiratan Brasil

04 de janeiro de 2020 | 10h17

Ao assistir ao mais recente filme de Clint Eastwood, O Caso Richard Jewell, eu puxei na memória os fatos que rodearam aquele dia 27 de julho de 1996. Eu estava em Atlanta, cobrindo a Olimpíada pelo Estadão, ao lado de colegas queridos como Heleni Felippe, João Pedro Nunes e Fernando Barbosa, além da fotógrafa Luludi e da não menos querida Denise Mirás, que cobria pelo Jornal da Tarde – tínhamos ainda um colega da rádio Eldorado, cujo nome não consigo me lembrar e, por isso, não me perdoo.

Aquele 27 de julho foi um sábado. Na madrugada daquele dia, uma bomba estourou no Centennial Olympic Park, principal ponto de encontro das pessoas que acompanhavam a Olimpíada. Era um parque construído às pressas, onde o público tanto podia se refrescar do calor do verão (o filme mostra os inúmeros jatos d’água que brotavam do chão e faziam a alegria das crianças) como assistir a shows durante a noite. Era, portanto, um local de encontro de multidões.

Lembro que, como sempre, trabalhamos até mais tarde na noite de sexta-feira, dia 26, por causa do famoso pescoção – matérias de adiantamento pra edição de domingo. A sala de imprensa ficava ao lado do Centennial Park e, do refeitório, tínhamos uma vista completa do espaço onde aconteciam os shows. Fui embora já passava da meia noite, mas colegas de outros jornais ficaram um pouco mais. Naquela época, não sei se continua assim, o centro de imprensa (tanto de Copas do Mundo como de Olimpíadas) não fechava nunca, pois tinha de atender a jornalistas de todas as partes do mundo. Ou seja, para australianos e japoneses, por exemplo, enquanto era madrugada em Atlanta, já era de dia em seus países, portanto, muitos (especialmente de rádio e TV) trabalhavam na madrugada.

Eu não estava mais no centro de imprensa quando a bomba estourou, por volta da 1h20 da madrugada (já eram 2h20 em Brasília). Lembro que estava em um táxi, voltando para o hotel, quando, no sentido oposto, uma impressionante fila de ambulâncias e carros de polícia dirigia em alta velocidade, com as sirenes gritando. Eu e o motorista do táxi ficamos assustados, pois o barulho era ensurdecedor e os carros corriam em alta velocidade. No hotel, obviamente liguei a TV, na CNN, emissora que era justamente de Atlanta. Ali já havia imagens de pessoas caídas no chão, policiais tentando ajudar, uma grande correria de pessoas desorientadas.

Tentei falar com meus colegas para ver estava tudo bem – naquela época, o celular era aquele trambolhão, pesado, mas já de muita utilidade. Os emails ainda eram bebês, poucas pessoas usavam, portanto, o contato era via oral mesmo. Descobri que todos estavam bem. Soube ainda que a sala de imprensa estava fechada: ninguém entrava e ninguém saía também. Colegas que lá ficaram contam ter sentido um estremecimento do chão quando a bomba estourou. Todos correram para o refeitório e, ainda sem saber o que tinha acontecido mas já imaginando algo ruim, viram pessoas correndo para todos os lados. Aquele refeitório oferecia, de fato, uma visão privilegiada do local.

No dia seguinte, sábado pela manhã, a sala de imprensa já estava reaberta e ainda me lembro do silêncio com que diversos jornalistas nos posicionamos no restaurante, olhando para o parque, ainda com muito lixo espalhado, e principalmente para a torre em cuja base a bomba estourou. Ali, havia ainda muitos estilhaços de madeira e pertences deixados pelas pessoas. A rotina, a partir daquele momento, mudou radicalmente, com o controle de entrada tornando-se rigorosíssimo. Se antes passávamos até com certa rapidez pelo controle de raio X, agora todos nossos pertences eram revistados, a credencial cuidadosamente checada, o raio X pegava até pensamentos terroristas. Com isso, demorava-se muito para poder entrar. Tal atitude, aliás, passou a ser a rotina na cidade. Antes, circulava-se com certa tranquilidade em ônibus, metrô – digo certa porque havia muita gente e tudo era mais demorado por causa disso. Depois do atentado, tornou-se um suplício tamanha a demora, pois todos pacotes, mochilas, pastas, malas eram revistados  antes de se entrar no metrô, por exemplo.

Uma precaução que nasceu também de reclamações: lembro ter visto na TV uma entrevista com um rapaz, vendedor de loja, que estava no Centennial Park naquela noite. Ele dizia que era pequena a presença de policiais e seguranças no local. E que as pessoas com mochila circulavam tranquilamente, sem nenhum tipo de revista. A reclamação veio justamente porque foi dentro de uma mochila que se encontravam as bombas, deixada no chão, próximo a um banco de descanso, na torre onde trabalhava o pessoal de TV que captava imagens dos shows para os telões.

Para evitar um caos maior, os jogos não foram paralisados. Não esto certo, mas acho que só não houve competição na manhã de sábado, mas à tarde tudo voltou ao normal. Bem, em termos, pois tínhamos medo de estar em locais lotados como os estádios e os vagões de metrô. Aliás, naquela tarde, foi feito um minuto de silêncio no estádio olímpico em respeito às duas vítimas (uma foi por conta da explosão e a outra, também se não me falha a memória, foi de um repórter fotográfico, que sofreu um ataque cardíaco quando corria para o local, na tentativa de fazer a cobertura).

A partir daquele dia, e nos seguintes, tornou-se habitual uma coletiva de imprensa do FBI, que era coberta por mim e pela Denise. Eram chatíssimas, pois pouca coisa era divulgada, uma vez que a investigação corria em sigilo. Mas logo o jornal designou nosso então correspondente em Nova York, Paulo Sotero, para cuidar da cobertura. Decisão acertada pois, mesmo à distância, ele conhecia melhor como fazer esse tipo de cobertura. Assim, acompanhei à distância o suplício que se tornou a vida de Richard Jewell, o segurança que desconfiou daquela mochila suspeita, o que ajudou a salvar centenas de pessoas da morte.

Livrei-me de uma chatice mas caí em outra: o jornal me designou para acompanhar uma delegação de políticos brasileiros, do Rio de Janeiro, que visitavam oficialmente Atlanta. O Rio ambicionava sediar a Olimpíada de 2004, que acabou sendo em Atenas. Justamente a cidade onde deveria ter ocorrido a olimpíada de Atlanta pois, em 1996, comemorava-se o centenário dos jogos olímpicos – por isso que em tudo havia a palavra “centennial” em Atlanta. Ao lado dos políticos brasileiros, conheci o prefeito de Atlanta e o governador da Georgia. Esse, aliás, ao ser apresentado a mim, me olhou bem no rosto e disse para os políticos: “Tratem bem desse rapaz e de todos os jornalistas, pois a imprensa pode derrubar qualquer um de seus planos”. Claro que me senti o máximo. Ao menos, valeu um pouco ficar fora dos jogos naquele dia.

 

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