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Jabuti

Ubiratan Brasil

02 de outubro de 2010 | 11h16

Foram divulgados os vencedores do Prêmio Jabuti. E, na categoria que mais chama a atenção, romance, venceu Edney Silvestre e seu ‘Se Eu Fechar os Olhos Agora’. Confesso que não tinha lido a obra até sua vitória no Prêmio São Paulo como autor estreante, em agosto. Daí fiquei curioso. Não o li devidamente, mas tive uma boa impressão. Edney é repórter da TV Globo e busca, em suas matérias, oferecer um texto um pouco mais rebuscado que o tradicional, o que é um terreno perigoso, acredito – desde que Armando Nogueira introduziu textos poéticos em algumas reportagens de esporte na TV lá pelos anos 80, alguns profissionais daquela área passaram a acreditar que o uso de metáforas é livre e sempre provoca uma boa impressão.

Resultado: um monte de texto sem pé nem cabeça, piegas, em que revelava no autor a velha tendência brasileira de se acreditar que falar difícil significa exibir inteligência. Ultimamente, Pedro Bial e Tadeu Schmidt, que são homens inteligentes, têm caído nessa armadilha.

Edney, ao menos, tem bom senso. Todas suas matérias que acompanhei trazem algumas frases metafóricas, mas que não ultrapassam a linha do ridículo. Não atrapalham a intenção de informar, ajudando-a muitas vezes.

Sereia, portanto, na literatura que ele encontraria espaço para, digamos, extravasar sua veia poética. Mas, pelo que li, ele mais uma vez foi ponderado, preocupado que os fatos da história se destacassem por si mesmos, independente do jogo de palavras. Em conversa telefônica que tivemos tão logo foi anunciado o prêmio, ele, depois de revelar sua imensa alegria, contou que busca transformar sua literatura em espelho da realidade. Não trazendo apenas os aspectos sociais, mas algo mais macro, a História propriamente dita. Edney reclamou do que acredita um certo desinteresse de muitos autores nacionais (ficcionistas, na verdade) em não se interessarem por fatos tão cruciais como a ditadura militar, a ebulição política, o governo Lula e até a eleição geral que teremos neste domingo.

Entendo sua queixa, mas acredito que não podemos ser reducionistas. Afinal, é possível retratar os terríveis anos da ditadura militar (1964-1982) sem citar uma só data ou mesmo algum ponto de tortura. Claro que, para isso, do outro lado do teclado (ou do lápis ou da caneta) esteja uma mulher ou um homem sensível à trajetória do País e, mais importante, com talento para a escrita.

Foi interessante a vitória de Edney no Jabuti, derrubando um grande favorito, Chico Buarque e seu “Leite Derramado”. Mas, sinceramente acredito que Chico deverá ser eleito o autor do Livro do Ano de Ficção, pois aí votam também livreiros e profissionais da área. E, nesse caso, têm prevalecido autores famosos, independente de sua qualidade literária. Veremos no dia 4 de novembro, quando será aberto o envelope.

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