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gaiola das loucas

Ubiratan Brasil

28 de outubro de 2010 | 00h47

  Mais um musical em São Paulo, A Gaiola das Loucas. Veio do Rio, onde cumpriu temporada de muito sucesso, o que deve se repetir por aqui. Fui assistir no início desta semana, em uma sessão especial para convidados. Minha expectativa era grande e, como sempre acontece quando vou ao teatro, fui preparado para gostar. Mas confesso ter saído frustrado.

A história é conhecida: um casal de homossexuais (um coordena e é o apresentador de um cabaré onde o outro é a grande estrela) é obrigado a mudar sua rotina para enganar o futuro sogro do filho deles. Sim, Georges, o mestre de cerimônias, teve um rápido e fugidio caso heterossexual anos antes. O garoto quer se casar mas o pai da menina é um político ultraconservador, obstinado em, se eleito, varrer todas as casas de espetáculo que abriguem gays. Assim, os pais do rapaz são obrigados a fingir que são ‘normais’.

É a clássica estrutura da comédia de erros em que, depois de uma série de confusões, chega-se a um final feliz. Gaiola vai além ao demonstrar que a felicidade também é puramente aceitável em um casal formado por dois seres do mesmo sexo, pois o que realmente vale é o amor.

Diogo Vilela vive Zazá, a grande estrela do cabaré, que, fora dos palcos, chama-se Albin. E Miguel Falabella é Georges. Há uma cumplicidade entre eles que sustenta o maior valor do espetáculo, justamente essa ode ao carinho e à relação estável. É divertido acompanhar Miguel, com seu habitual dom de comédia, tentar controlar as histrionices de Diogo, perfeito como o amante mimado e a estrela suscetível. Eles são responsáveis pelos melhores momentos de humor.

Pena que não senti o mesmo do restante do elenco – se não comprometem, eles também pouco vão além do esperado. Me incomodou, aliás, o histrionismo de Jorge Maya como o mordomo Jacó – apesar de talentoso, sua interpretação extrapola, avança demais e acaba comprometendo o resultado final. Ou seja, o que inicialmente é engraçado logo perde a graça pela repetição. Sei que comparações muitas vezes são injustas mas me lembro de ter gostado do mordomo da primeira versão para o cinema de A Gaiola das Loucas, de 1977: era hilariante a forma como o ator (não me recordo o nome) mostrava a tortura que era para o mordomo ter de usar sapatos, pois vivia descalço pela casa.

Também as canções deixaram a desejar. A voz de Miguel Falabella me pareceu inadequada em determinadas músicas. Não que desafinasse, mas a entonação provocava um desconforto, seja pelo tom, seja pela intensidade. Diogo Vilela é um profissonal raro por trabalhar com dedicação e competência em cada papel que interpreta, o que se observa nos trejeitos de Zazá/Albin. Não exagera além do necessário, mas também sua participação musical me causou estranheza. Pareceu solene demais em algumas canções,  quando, segundos antes, vivia um homem exagerado nos modos. Um descompasso que me chamou a atenção.

Já o grupo que interpreta os dançarinos travestis foi perfeito, com belos números de dança que exigem uma boa noção de sapateado. Não percebi ninguém tropeçando ou perdendo o ritmo no jogo de pés. Foram grandes momentos.

Pretendo rever, em algumas semanas, o musical para constatar se não estava mal humorado nesta primeira avaliação. Gosto muito do trabalho de Diogo e Miguel, profissionais realmente gabaritados. Mas, por enquanto, acho que me ficaram devendo.

Nessa maratona maravilhosa de musicais, vou ao Rio neste fim de semana acompanhar a pré-estreia de Hair, mais um espetáculo dos sempre competentes Claudio Botelho e Charles Moeller, que estreia no Rio na próxima semana. E, no feriado, devo assistir a um ensaio geral do nosso Mamma Mia! que, como apostei antes, será superior a outras montagens internacionais.

Só para não perder o embalo, o outro espetáculo a que assisti em Nova York foi The Little Night Music, clássico do grande Stephen Sondheim. Em poucas palavras, fui para ver mais um banho de interpretação e canto de Bernadette Peters, que participou de Gypsy e Into The Woods na Broadway. Seu senso de humor é refinadíssimo, maroto, muitas vezes sarcástico. Me faz lembrar uma hilariante comediante que fazia parte da troupe de Mel Brooks no cinema, Madeline Kahn. Ambas conseguem imensos resultados com pequenos gestos. Tive a sorte de sentar na primeira fileira o que me deu o privilégio de acompanhar atentamente a atuação de Bernadette. Ela substitui Catherine Zeta-Jones, que cumpriu a primeira temporada. É uma atriz competente, mas com voz limitada, como comprova a gravação em CD do espetáculo. Sinceramente, hoje ela não faz falta alguma.