Flip Virtual 2020 teve muito mais acertos que erros
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Flip Virtual 2020 teve muito mais acertos que erros

Ubiratan Brasil

06 de dezembro de 2020 | 22h49

Foram 12 mesas virtuais, reunindo 22 autores cujas opiniões foram acompanhadas por um público total de 60 mil visualizações nas redes sociais. A Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip, guardará com carinho sua 18ª edição, a primeira (e, espera-se, a única) a negar o conceito natural de uma feira literária, que é reunir um bom público em torno de um encontro entre autores.

Autores e mediadores estavam em locais distintos, assim como o público. Mesmo assim, não faltaram momentos calorosos, quase repetindo a experiência de estar dentro da enorme tenda que se tornou marca registrada da Flip. Desde a despreocupada conversa entre Caetano Veloso e o filósofo espanhol Paul B. Preciado, na noite de sábado, em que discutiram sobre liberdade, sexualidade e gênero, até o tocante encontro entre a americana Regina Porter e o brasileiro Jeferson Tenório, na tarde/noite de domingo, que mantiveram um diálogo afiado, direto, sobre paternidade, racismo, desigualdade.

Abertura. A conversa entre Stephanie Borges e Bernardine Evaristo. Reprodução Ubiratan Brasil

Se a falta de proximidade não permitiu que certos encontros (como entre o poeta americano Danez Smith e a escritora e ativista brasileira Jota Mombaça que, se juntos estivessem, teriam oferecido uma verdadeira performance) não atingissem a temperatura esperada, por outro lado a democratização da internet favoreceu que qualquer pessoa de qualquer parte do planeta pudesse acompanhar gratuitamente os debates.

Mesmo sendo essa a primeira Flip Virtual, a programação acertou na combinação dos escritores. Afinal, já na mesa de abertura, na quinta-feira, 3, a britânica Bernardine Evaristo e a brasileira Stephanie Borges deram o tom que marcaria alguns dos encontros seguintes, reflexões sobre os assuntos mais sensíveis do momento, como questão de gênero e racismo. “Eu escrevi um livro sobre nós, mulheres negras, e as várias maneiras de estarmos no mundo. Quando as pessoas dizem que se sentem vistas, eu sei o que estão dizendo. É um romance que um homem branco não poderia ter escrito, porque vem de toda essa experiência de quem nós somos. Não olhando de fora, mas de dentro”, disse Evaristo durante a mesa.

Até as mesas cuja expectativa era alta não decepcionaram – como o primeiro encontro do sábado, 5, com a historiadora Lilia Moritz Schwarcz comprovando que é uma das principais pensadoras brasileiras da atualidade. Tratando das raízes do autoritarismo brasileiro, ela foi certeira: “A pandemia fez com que os governos fossem obrigados a intervir nos seus estados. E fez com que presidentes fossem obrigados a executar aquilo para o que eles vieram. Eles têm que cuidar da educação, da segurança e cuidar da nossa saúde”, afirmou.

Outro encontro muito esperado, entre Caetano e Preciado, foi pré-gravado mas não perdeu o impacto. À vontade, Caetano relembrou paixões adolescentes (como por um colega de classe) especialmente na Bahia, onde vivia rodeado de colegas homossexuais. “O modelo de masculinidade que me foi ensinado desde a infância pela sociedade não foi aceito por mim como indiscutível. Ao contrário, foi algo com o que eu tive uma relação de mais do que desconfiança, uma relação de problematização”, explicou ele. O encontro, aliás, foi o que teve mais visualizações: 9.471 – outras mesas que também atingiram boa audiência foram as que uniram Chigozie Obioma e Itamar Vieira Junior (3.694) e a da abertura, com Bernardine e Stephanie, com 3.098.

É preciso lembrar que a visualização dos encontros foi estimulante, com alternância de telas e projeção de imagens de assuntos referidos nas conversas, o que garantiu a dinâmica necessária. Novamente, a importância de uma boa mediação foi comprovada por um veterano em Flips, o mexicano Angel Gurría-Quintana, novamente preparado para estimular conversas como as que reuniram Obioma e Vieira Junior e também Caetano e Preciado.

Os senões ficaram por conta da baixa participação do público nas perguntas (sendo responsabilidade dos mediadores) e alguns problemas técnicos, como a completa ausência de tradução simultânea em português em alguns momentos ou, mais engraçado, quando dois tradutores entraram ao mesmo tempo, cada um com sua versão, comprovando que não existe tradução única e definitiva.

Se antes havia uma desconfiança sobre o bom proveito de um encontro online, a Flip Virtual 2020 comprovou que boas conversas rendem sempre, mesmo que os interlocutores estejam separados por um oceano.