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Fim de feira

Ubiratan Brasil

11 de outubro de 2010 | 07h37

Terminou mais uma edição da Feira de Frankfurt. Dessa vez, foi mais tranquila em relação à do ano passado, quando o temor sobre o livro eletrônico dominava. Dessa vez, todos perceberam que o básico (que é conteúdo escrito pelo autor) continua o mesmo – a disputa está entre os criadores de plataforma, ou seja, Kindle etc.

Também houve uma percepção mais clara da necessidade de se manter o livro em papel. A feira apresentou inúmeros projetos editoriais de extremo bom gosto, caixas com livros ilustrados, que são também um objeto, não apenas um portador de conteúdo. Isso, um e-book não consegue oferecer.

Nessa feira, consolidou-se também a suspeita do ano passado de que os maiores consumidores do livro digital inicialmente seriam leitores da área científica, ou seja, a universidade saiu na frente. Aparentemente, o conteúdo necessário para essa fatia de público não perde em qualidade quando transferido para um e-book.

A sensação de alívio veio no mesmo momento em que se percebeu que a crise econômica aparentemente foi mesmo enterrada. Os empresários estão mais dispostos em investir, o que, claro, anima o mercado.

Senti, no entanto, um esvaziamento da feira. Havia estandes vazios, algo que não percebera antes. Também os corredores não estavam tão lotados nos três primeiros dias, quando o acesso ao público ainda não é permitido, apenas para os profissionais e convidados. A organização apressou-se em dizer que a Argentina, país convidado deste ano, trouxe uma delegação menor que a China, convidada no ano passado. Também que alguns editores do Leste Europeu ainda sentem efeito da crise econômica. Pode ser, mas o vazio surpreendeu, mesmo assim.

Sobre a Argentina, notei prós e contras na organização do pavilhão especial, espaço reservado ao convidado. Primeiro que não havia uma interatividade como vemos em exposições daqui, como a de Fernando Pessoa no Museu da Língua Portuguesa. A história literária do país foi contada em paineis pouco atraentes e até confusos. Pensei imediatamente na exposição do Pessoa, em que se entra em uma pequena cabine, faz-se um gesto com a mão e poemas vão sendo vizualizados. Isso é essencial para atrair público mais jovem, cuja facilidade para a interação tecnológica já é inerente. Assim, nesse aspecto de apresentação de seus autores (especialmente de duas pepitas de ouro que são Jorge Luis Borges e Julio Cortázar), a Argentina foi pobre.

Compensou, porém, com a vinda de muitos escritores e com a realização de diversos debates interessantes. Falou-se tanto sobre futebol e literatura como da escrita resistente na época da ditadura militar. E ofereceu, ainda,  a rara oportunidade de se estar diante de Juan Gelman que, volto a insistir, é um poeta de primeira grandeza.

Tudo serviu, portanto, como lição para a delegação brasileira para 2013, quando nosso País será o convidado oficial. Confesso ter muito receio sobre essa organização – se a política interferir demais, podemos desviar o foco, o que não interessa em nada – no estande argentino, por exemplo, chamou atenção da imprensa europeia a quantidade de fotos em que aparecia a presidenta Cristina Kichner.

Também precisaremos ter uma comissão independente, capaz desde escolher o logotipo até a forma de organização do pavilhão – ainda sobre a Argentina, a escolhida foi uma artista que apostou no labirinto, em homenagem a Borges. Necessitamos ainda de uma escolha apurada dos autores que irão para lá, sem politicagem ou privilégio para tal ou tal editora. Os editores, aliás, deverão ter o bom senso de saber que algumas de suas casas editorias serão mais representadas que outras, pela qualidade de seus autores.

Enfim, um trabalho árduo, mas possível de realizar. Não podemos peder tempo com discussões inúteis. Já em 2011 precisamos exibir uma amostra do que acontecerá dois anos depois. Isso é vital.

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