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Filme estrangeiro

Ubiratan Brasil

25 Fevereiro 2012 | 20h40

Como acontece todos os anos, na manhã do sábado que antecede a entrega do Oscar, os candidatos a filme estrangeiro se reúnem para um bate-papo, comandado pelo diretor do comitê desse prêmio, o produtor Mark Johnson. É um encontro muito agradável, com a presença do público, em que são exibidas cenas dos longas concorrentes e mais de duas horas de conversa sobre a feitura dessas produções.

Nesse ano, todos os diretores estiveram presentes no Samuel Goldwyn Theater, um elegante cinema da Academia localizado em Beverly Hills. Foram discutidos aspectos diversos, desde a produção até o trabalho com atores. 

  Um dos assuntos mais interessantes foi sobre a presença de crianças: praticamente todos os cinco filmes (o belga Bullhead, o israelense Footnote, o polonês In Darkness, o canadense Monsieur Lazhar e o iraniano A Separação) têm crianças em seu elenco, alguns com grande destaque como A Separação e Monsieur Lazhar, que conta a história de um professor argelino que assume uma classe de Montreal onde os alunos ainda vivem sob o choque do suicídio do antigo mestre. Asghar Farhadi disse que, quanto menos o ator mirim souber de seu papel, melhor. “Em A Separação, eu tive de enganar a pequena menina, dizendo que a sua mãe na história traí o pai. Com isso, consegui grandes momentos dela. Só quando viu o filme é que ela veio me cobrar o engano”, disse.

Já o canadense Philippe Falardeau  contou que frequentou diversas aulas de jovens alunos para ver como eles se comportavam. “Observei postura, como seguravam o lápis, as conversas paralelas, a forma como trocavam bilhetes”, disse. “Mesmo assim, ao dirigir (havia sempre 20 crianças no set), não podia ser autoritário e era obrigado a conquistar a confiança de cada um.”

Sobre esse aspecto, o belga Michaël R. Roskam (cujo filme trata do cartel criminoso que engordava o gado indiscriminadamente com hormônios ilegais, fato realmente acontecido na Bélgica nos anos 1990) foi mais taxativo: antes de conquistar a criança, o diretor deve conquistar os pais dela. “Se em determinada cena, o pai ou a mãe disser meu filho não faz isso, você não consegue filmar”, afirmou. “Trazendo os pais para a história, tornando-os cúmplices da filmagem, meio caminho já está percorrido.”

A polonesa Agnieszka Holland, por outro lado, teve de enfrentar outro problema. Ao contar a história real de judeus que, na 2ª Guerra, eram obrigados a viver escondidos nos esgotos das cidades, ela não tinha muito tempo para filmar. É que na Alemanha, onde boa parte do filme foi rodado, a lei limita em até três horas por dia o tempo que uma criança pode participar como ator. “Por conta disso, eu não podia perder tempo”, lembra.

Terminado o debate, os diretores conversaram com o público no saguão do cinema, numa bela confraternização. E deu pra notar que Agnieszka foi a mais procurada.