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Ficção e História

Ubiratan Brasil

13 de novembro de 2010 | 13h58

Feiras literárias são sempre uma incógnita – por mais que se conheça seu funcionamento, é preciso contar com o imponderável para que um encontro dê certo. Ou seja, um grupo de debatedores que se entrosem de fato, uma plateia atenta e disposta a perguntar com relevância. Quando isso acontece, o resultado é parecido com o que se viu na manhã desse sábado friorento em Ouro Preto, durante o Fórum das Letras: o debate entre Lira Neto, Paulo Markun e Edward Pimenta sobre o papel do jornalismo entre a ficção e a história. A mediação foi do jornalista André Nigri.

O assunto já inspirou outros vários encontros em outras festas literárias, com uma mudança na nomenclatura e na formação da mesa. Mas aqui houve uma discussão séria e aprofundada, na medida do possível. Lira Neto, por exemplo, que já biografou Maysa, Padre Cícero, José de Alencar e o general Castelo Branco, disse que retratar o poder é que mais lhe interessa quando escreve. Não o poder institucional, aquele desfrutado pelos encarregados de manter a ordem na sociedade – mas aquele assumido em determinados momentos por certas pessoas.

Maysa, por exemplo, dominou e foi dominada pela mídia, criando uma relação que se tornou imprescindível para os dois lados. Ela tanto vendia histórias a seu respeito como era devassada pela imprensa sensacionalista da época, em busca de bebedeiras e internações hospitalares.

Já Paulo Markun disse que prefere o derrotado, pois acredita que o fracasso tem mais a ensinar que o sucesso. Cabeza de Vaca, por exemplo, desbravador espanhol do século 16, foi seu mais recente personagem. Tanto ele como Lira confessaram ser mais interessados pela realidade que pela ficção. A formação jornalística certamente influencia essa escolha, ainda que uma área tangencie a outra, sempre, em seus livros. Nesse caso, ambos adotam medidas típicas da profissão (checagem de dados, por exemplo), mas sabem que não escapam da narrativa como forma da escrita. “A biografia”, disse Lira, “é uma tentativa de dar ordem ao caótico, a uma conjunção de histórias que parecem desordenadas. É a tentativa de interpretar uma existência.”

Edward Pimenta lembrou ainda que a ficção também a ficção se apropria da realidade para existir. E, por ser mais ampla e menos condicionada a regras, permite que o assunto seja tratado em um universo inatingível pelo jornalismo, premido por espaço e regras que são típicas nesse tipo de texto.

Enquanto Lira prepara seu grande projeto de vida (a biografia de Getúlio Vargas, dividida em três volumes e que vai consumir dez anos de pesquisas e escrita), Markun já rascunha Um Brado Retumbante, que vai ambientar na campanha das Diretas Já, marcante movimento social dos anos 1980. Ele vai se concentrar em 11 personagens que tiveram um papel fundalmental, como o ex-governador Leonel Brizola. Markun adiantou ainda outro projeto, sobre um crime acontecido em Minas Gerais que ficou conhecido como o Crime das Sete Orelhas. Trata-se da trajetória de um homem que matou os irmãos de uma família, formando um colar com suas orelhas.

O debate permitiu observar que, mesmo em um mundo cada vez mais bombardeado por informações, que nos chegam por diversos meios, é necessária a presença de alguém que dê ordem ao caos, que encaminhe uma história e a contextualize. Isso, claro, tanto pode ser útil como perigoso. O que se espera é uma consciência crítica de quem lê, sabendo distinguir o joio do trigo.

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