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Chico e Saramago

Ubiratan Brasil

23 de setembro de 2010 | 09h54

  Fui cobrir a homenagem a José Saramago, que aconteceu na noite de quarta no Sesc Vila Mariana. Textos do escritor português foram lidos por três atrizes de gabarito (Denise Weinberg, Lígia Cortez e Bete Coelho) e também pelo homem que disputava todas as atenções, Chico Buarque de Holanda. Presente também Pilar Del Río, mulher de Saramago, que abriu o evento, também lendo um trecho.

  Foram momentos belos mas, creio, solenes demais. Um roteiro seguido à risca, com quase nenhuma manifestação pessoal – isso ficou por conta de Danilo Santos de Miranda, diretor do Sesc em São Paulo, e por Luiz Schwarcz, diretor da Companhia das Letras e grande amigo de Saramago. Foram dele, aliás, os momentos mais íntimos, especialmente quando relembrou a chegada de Pilar à sua casa – o casal vinha se hospendando na casa dele nos últimos anos. Luiz disse que foi estranho acompanhar a chegada de Pilar “sem o José” e que ela ficou admirando o jardim, certamente sentindo a falta do companheiro.

A solenidade foi quebrada pelo próprio Saramago, que surgiu em algumas imagens documentário José e Pilar, a estrear no Brasil no dia 5 de novembro. As cenas se intercalavam com a leitura de textos pelas atrizes e ali foi possível relembrar o bom e velho Saramago. Especialmente quando alfinetava o catolicismo, ao dizer que o pecado foi criado como instrumento de dominação: quem peca está, portanto, sujeito à condenação vinda de outro. Ou quando disse que o bom era ser árvore: tira o alimento direto da terra e, no caso das sequóias, vive centenas de anos.

A finitude da vida dominou boa parte da cerimônia, organizada justamente para mostrar que Saramago conquistou a eternidade com sua obra – essa, sim, ficará.

A presença de Chico Buarque causou a tradicional agito. Mesmo alertados da proibição, dezenas de celulares e máquinas foram acionadas e uma chuva de flashes acompanhou a leitura feita por ele. Leitura, aliás, claudicante – se as atrizes se prepararam, ensaiando e marcando o texto para encontrar o tom certo, Chico parecia estar no improviso, muitas vezes perdendo a entonação certa por conta da prosa sem marcações típica de Saramago.

Não fez feio (para a maioria, isso seria impossível). Mas certamente destoou do restantes. O que, pensando bem agora, não foi mal, pois quebrou um pouco o tom respeitoso demais da cerimônia.

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