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Capitu

Ubiratan Brasil

19 de setembro de 2010 | 12h58

  Por conta de um seminário, reli Dom Casmurro, um dos clássicos de Machado de Assis. A fama de obra-prima está cristalizada mas é impressionante como mantém um frescor, uma genialidade de detalhes. Fazia tempo que não voltava ao livro, pois me ocupava mais com sua versões – como a minissérie de Luiz Fernando de Carvalho (bela, mas um tanto confusa). É evidente que nada supera o original.

  Eu não me lembrava das impregnações shakesperianas do texto machadiano, especialmente em relação ao ciúme. A peça Otelo é que a vem logo à mente, graças ao ciúme doentio do mouro atiçado mais por uma dúvida que pela certeza. Há também alusões nos nomes escolhidos por Machado, como o sobrenome de Bentinho, que é Santiago: seria uma mistura de Santo com Iago, o maléfico personagem de Otelo, ou seja, a fusão do bem com o mal.

  Também a narrativa de Dom Casmurro (que, para quem não se lembra, é sob o ponto de vista do supostamente traído, Bentinho) é salpicada de referências mitológicas e históricas tanto de homens que padeceram sobre a traição ou de mulheres que cometeram tal ato. Ou seja, antes mesmo de eclodir a suspeita de Bentinho de ser traído por Capitu com Escobar, ele vai jogando pistas no texto.

  A genialidade de Machado se confirma, aliás, nessa tentativa de Bentinho em ratificar sua suspeita. Sem ter a certeza por si só, ele passa a limpo o passado de forma a encontrar as pistas que a comprovariam, fortalecendo, pois, seu discurso. E, com isso, tenta laçar o leitor como cúmplice. O resultado é que, apesar das aparentes evidências, persiste até hoje a dúvida sobre a traição.

  Isso, repito, é assunto de gênio. Lembro-me de uma conversa com Lygia Fagundes Telles sobre o assunto há alguns meses. Ela me contou que, quando jovem, tinha a certeza da traição e odiava Capitu por conta disso. Anos depois, mais madura, descobriu-se em dúvida. Já mais velha, acreditava que o ato não acontecera. Hoje, não sabe dizer ao certo, pois, dependendo do ponto de vista, tanto podem condenar como salvar Capitu. Uma prova de que o romance continua vivo, mesmo depois de publicado há 111 anos. Sei que é chover no molhado, mas recomendo a todos a releitura.

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