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Balanço da década literária

Ubiratan Brasil

27 de dezembro de 2010 | 09h19

Na edição desse domingo do Caderno 2, publicamos um balanço de como foi a primeira década do século 21 nas artes. Por conta da evolução tecnológica, houve mudanças profundas, especialmente na música, cinema e literatura.

Assim, pensando na área literária, pedi a opinião de alguns especialistas e deu para publicar o material que chegou em tempo. Infelizmente, não foi o caso de um belíssimo texto escrito pelo editor da Objetiva/Alfaguara, Roberto Feith. Para não desperdiçar um ensaio tão interessante, tomo a liberdade de reproduzi-lo aqui.

“A primeira década do Século XXI foi extraordinariamente positiva para o mundo do livro.  Reconheço que esta afirmação parece contra intuitiva. Muitos vaticinam que o livro está com os dias contados, que os jovens lêem cada vez menos, que as pessoas não têm tempo para ler, muito menos para escrever obras complexas e consistentes. Que a internet, em suas muitas manifestações, será o tiro de misericórdia de uma atividade arcaica. Bobagem.

A internet tem sido uma poderosa ferramenta de apoio, turbinando a indústria editorial. Nunca foi tão fácil e tão rápido obter informações sobre qualquer assunto, inclusive livros e autores. Nunca foi tão fácil comprar livros sem sair de casa, ou compartilhar opiniões, críticas e recomendações sobre eles. A internet não substitui o livro, ela facilita o acesso a ele.

Os grandes “heavy users” da internet, a garotada adolescente, contrariando as previsões, nunca leu tantos livros. Talvez a maior mudança no perfil dos leitores desta década tenha sido exatamente o crescimento impressionante no número de obras consumidas por esta turma. A maioria não lê os clássicos. O fenômeno é impulsionado pelas séries juvenis, de Harry Potter à Crepúsculo; mas o importante é que estes jovens estão lendo por puro prazer, vivenciando a capacidade singular da literatura de nos transportar para um mundo inventado e, por isto mesmo, creio, tornando-se leitores por toda a vida.

E a ‘grande literatura’, a ficção como arte transcendente, como está? Não apenas viva, como vigorosa. Para quem dúvida, sugiro que leiam Freedom de Jonathan Frantzen, ou Pornopopéia de Reinaldo Moraes, para citar apenas dois de uma nova geração de brilhantes escritores que surgiu na década, nos quatro cantos do planeta.

É claro que houve diferenças entre regiões e países. Para os mercados maduros, Europa, Estados Unidos, a década foi mais turbulenta e as perspectivas são menos promissoras. O Brasil, ao contrário, teve um decênio de crescimento em virtualmente todos os segmentos do livro, com a exceção preocupante dos livros técnicos e científicos, fustigados pela cópia ilegal que prospera com a tolerância do poder público na maioria das universidades brasileiras.

Olhando para a nova década, considerando as mudanças demográficas, a crescente diversidade da população, a incorporação de milhões de novos consumidores das classes ascendentes, a diminuição do analfabetismo e os investimentos na educação, as perspectivas para a indústria editorial brasileira são excelentes.

E as novas tecnologias? Creio que o ano de 2010 foi um divisor de águas, um ponto de inflexão na disseminação do livro no formato digital. A chegada de uma nova geração de dispositivos de leitura que oferece ao leitor uma experiência comparável à leitura do livro impresso, e, em alguns aspectos, superior, foi um fator crítico. Mas existe outro aspecto vital: a união da experiência de leitura oferecida por estes novos dispositivos com a comunicação sem fio com a web. Isto quer dizer que uma pessoa poderá comprar qualquer livro, a qualquer momento, de qualquer lugar, numa questão de minutos. Este fato singelo transforma a psicologia do acesso ao livro; é uma mudança profunda, que, na minha opinião, vai aumentar o número de obras lidas por pessoa.

É claro que a mudança também traz novos problemas e ameaças, sendo que a maior delas é a possibilidade do crescimento da pirataria virtual. Em todo o mundo, na medida em aumenta a distribuição de arte e de informação via web, se fortalecem os dispositivos de proteção da produção intelectual e de combate à cópia ilegal. A sociedade brasileira (leitores, escritores, professores, cientistas, editores, juízes e políticos) precisa se mobilizar neste sentido, pois, ao contrário, veremos a gradativa destruição da produção literária e editorial brasileira e sua substituição por obras de países nos quais a criação é incentivada e protegida.

Para finalizar, contemplando o meu próprio jardim, para a editora onde trabalho, registro que em 2010 publicamos um número recorde de livros e vendemos um numero recorde de exemplares.  Vejo nosso programa editorial para 2011 e creio que nunca tivemos um elenco tão potente de lançamentos. Não quero ceder ao ufanismo ou o otimismo Panglossiano, mas, acredito, os fatos indicam que após uma década excelente, teremos outra vibrante, plena de inovação e oportunidade.”

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