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Ave, Maria Alice

Ubiratan Brasil

09 de setembro de 2010 | 17h57

Teatro e Literatura – duas das artes mais antigas serão o tema principal das inúmeras conversas que inicio aqui. Duas áreas que acompanho há alguns anos e com as quais me identifico tanto. E, por serem antigas, fazem pensar que nada mais existe de novo, que tudo já foi criado -o que sobra são variações sobre o mesmo tema.
Às vezes me sinto assim, quando abro um livro ou vejo alguma peça. Até o momento em que vem a surpresa, provocada por algumas linhas maravilhosamentes escritas, que se desenrolam como novelo, ou com alguma atuação de tirar o fôlego.
Foi o que senti quando assisti recentemente ao espetáculo As Três Velhas, no CCBB, com Pascoal da Conceição, Luciano Chirolli e, principalmente, Maria Alice Vergueiro. Aos 75 anos, ela está com os movimentos limitados, mas, basta abrir a boca para Maria Alice reviver os bons tempos da ousadia.
Explico: atualmente, estou cansado de ver peças que, com raríssimas exceções, tentam escandalizar, seja por um diálogo cru, normalmente recheado de palavrões, seja por um nudez mal colocada, aquela que acredita que apenas a exibição das partes pudentas é o suficiente para fazer corar.
Por outros meios, Maria Alice continua justificando o título de atriz símbolo do teatro underground paulistano: há algo em sua voz, no seu olhar, que transmite transgressão. Os palavrões soam, acreditem, com conteúdo. A exibição dos seios causa espanto pela revelação da maternidade e não pela nudez em si. Maria Alice exibe ainda todo o vigor do Ornitorrinco, grupo que ajudou a criar, baseado essencialmento no trabalho de Brecht e Weil, associando de forma feliz a estética alemã com a sensualidade do corpo brasileiro.
Pascoal e Luciano são parceiros à altura, mas mesmo eles, no auge de sua capacidade, não chegam ao pico dominado por Maria Alice. Com ela, o teatro ainda existe para desafiar. E empolgar.

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