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Caricato, ‘O Mecanismo’ atira para todo lado

Apesar de atirar para todos lado, ‘O Mecanismo 2’ compra a tese da esquerda de que o movimento pelo impeachment de Dilma Rousseff foi um grande golpe articulado pelo alto escalão do STF e do Congresso Nacional, descrito como um antro.

Pedro Venceslau

22 de maio de 2019 | 18h48

A segunda temporada de ‘O Mecanismo’, da Netflix, desistiu de usar nomes fictícios e passou a chamar os partidos pelo nome real. PMDB, PSDB e PT foram colocados no mesmo balaio e esculachados na trama “inspirada” em fatos reais sobre a Lava Jato.

O discurso do diretor José Padilha criminaliza a política e surfa no sentimento que elegeu Jair Bolsonaro em 2018. Sem nenhuma sutileza, a série apresenta uma versão caricata e inverossímil de políticos como Aécio Neves, Michel Temer, Eduardo Cunha, Lula e Dilma Rousseff.

Candidato derrotado à Presidência da República em 2014, Aécio é chamado de Lúcio Lemes e aparece cheirando cocaína no banheiro de um hotel enquanto conspira abertamente para derrubar a presidente Janete, o codinome escolhido para Dilma Rousseff.

Michel Temer é apresentado como Tames, mas seu perfil destoa do personagem real: barrigudo e sem nenhum apego pela liturgia do cargo. A certa altura, o delegado Rufo (o sussurante Selton Melo em mais uma interpretação dele mesmo) diz que o vice-presidente “tem cara e jeito de babaca, mas burro não é”.

Apesar de atirar para todos lado, ‘O Mecanismo 2’ compra a tese da esquerda de que o movimento pelo impeachment de Dilma Rousseff foi um grande golpe articulado pelo alto escalão do STF e do Congresso Nacional, descrito como um antro.

“Não dá para bancar o impeachment baseado em corrupção. Corrupto não condena corrupto. Precisa embasar em outra coisa”, disse Penha (ou Eduardo Cunha), o poderoso presidente da Câmara dos Deputados.

Entre goles de whisky escocês, Temer então tem uma ideia brilhante: “Pedaladas fiscais”. Aécio arremata dizendo que conhece alguém pode fazer o pedido nesses termos.

Na vida real, os signatários do pedido de impedimento que derrubou Dilma foram o ex-ministro Miguel Reale e a advogada (e deputada) Janaína Paschoal. Difícil imaginar os dois conspirando sob o comando de Aécio.

Entre outras liberdades criativas, a série coloca na boca de Aécio Neves uma frase de Romero Jucá: “O STF precisa estancar essa sangria”. Até o momento nenhum deles se manifestou ou ameaçou processar Padilha e a Netflix, o que parece encorajar cada vez mais o diretor.

Com interpretações sofríveis, diálogos ralos e uma profusão de clichês, ‘O Mecanismo’ também abusa da paciência do público com erros de continuação e discrepâncias entre a primeira e a segunda temporada. Além de mudar sem mais nem menos os nomes dos partidos, a Polícia Federal ora aparece com seu nome real, ora como Polícia Federativa.

Por fim, a série também gastou tempo demais com uma investigação tosca no Paraguai sem nenhum lastro com a vida real. São coisas do tipo: “O Brasil não é para principiante” e “Ideologia é um troço que cega”.

O novo produto de Padilha não chega perto de seus outros sucessos, como ‘Narcos’ e ‘Tropa de Elite’ e em algum

momento mais parece um série mexicana de ação.

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