Vale Tudo: da época em que Regina Duarte transava o fogão

Estadão

15 de outubro de 2010 | 17h37

Raquel, de Regina Duarte, em Vale Tudo. Crédito Divulgação

Por Marcio Claesen*

Tendo em vista a significativa repercussão da reprise da novela Vale Tudo no Canal Viva em plena madrugada – 0h45 –, a paixão de parte do público pelas vilanias de Maria de Fátima e Odete Roitman contra as mocinhas Raquel Accioli e Solange Duprat parece não ter mudado tanto.

Por outro lado, ao comparar as atuais novelas da Rede Globo com esse sucesso dos anos 1980, não fica dúvida alguma de que os últimos 22 anos representaram grandes mudanças no jeito de fazer e exibir uma novela, e também na moda, nas gírias e no comportamento.

Os jovens de hoje, acostumados com os créditos subindo rapidamente após a última cena da novela, talvez não imaginem que, antes, as pessoas não desgrudavam da tevê enquanto não viam as famosas “cenas dos próximos capítulos”.

Vale Tudo foi uma das últimas tramas das oito a mostrar esse bloco final, que deixou de ser usado em 1990 durante a exibição de Rainha da Sucata. O mesmo aconteceu com o bloco inicial, que continha apenas a última cena do capítulo anterior e a abertura da novela e era separado da continuação da cena por comerciais. Atitude de quem, à época, não tinha problemas com a concorrência.

Não só a forma mudou, mas também o conteúdo. Mesmo que o aclamado padrão de qualidade da Globo já fosse nítido na década das calças bag, é gritante a diferença na comparação com novelas de hoje. São exemplos a iluminação muito menos elaborada, que deixava alguns atores quase no escuro, e a edição de imagem pouco ágil, que não via problemas em mostrar um diálogo no qual a câmera focava quem ouvia e não quem falava. A voz parecia vir do além.

Também não é possível deixar de notar as conversas cruzadas que embaralhavam os diálogos em cena, algo impossível de ser ver hoje a não ser se a intenção for de passar uma ideia de balbúrdia.

Nesses tempos, poros abertos e imperfeições da pele nos rostos dos atores ganhavam super closes sem constrangimento algum. O que também impressiona é que não havia tanta reclamação das estrelas a respeito desse fato, o contrário do que fazem prima donas temerárias do HD nos dias atuais.

Ah, os cabelos… Eles não são os mesmos. E as gírias também não. “Manja” aquela menina que “pintou” na festa e estava uma “uva”? Entendeu, “chérie”?

O verbo transar é um capítulo à parte. Na trama de Gilberto Braga, ele era usado em todas as acepções possíveis e imagináveis – muitas delas corroboradas pelos dicionários, mas estranhas aos nossos ouvidos de hoje. Causaria espanto alguém perguntar em 2010 algo como: “Vocês não iam transar mais uma pessoa para dividir o apartamento?” ou “pode transar de pagar o aluguel” ou ainda o insólito “é que eu transo fogão com carinho”.

O que “valia” nessa época? Personagens podiam fumar sem patrulhamento a qualquer hora do dia – inclusive pela manhã –, passar cheques sem restrições e cara feia dos comerciantes e curtir uma das últimas novidades tecnológicas: o videocassete. E nem venha com pensamentos recriminatórios. Ou vai dizer que você não conhece alguém com um blazer com ombreira no armário (isso se não for o seu!)?

*Marcio é editor-adjunto de Comunidade e Colaboração do Estadão.com e iniciou a carreira jornalística cobrindo TV para jornais do interior paulista. Cresceu com as vilanias de Odete Roitman e Laurinha Figueiroa, entre outras divas do mal criadas por Gilberto Braga, Silvio de Abreu e Aguinaldo Silva, de quem é fã.

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