Quanto drama!

Estadão

19 de abril de 2010 | 14h18

A metafísica da novela é terapia

Na última semana, mais de um noveleiro exclamou por aí: “Como é graciosa essa nova novela das 6!” Mesmo tristonha com o final de Cama de Gato (mais ainda com a morte do adorável Alcino), simpatizei com a novela de Elizabeth Jhin de véspera, quando soube qual era a história. Trama instigante a de Escrito nas Estrelas, do mocinho que morre logo no primeiro capítulo e do pai dele, que quer gerar um neto com inseminação artificial.

A novela propõe uma discussão científica, ética e filosófica por meio da intenção do dr. Ricardo (Humberto Martins). Mas, não por acaso, o público acolheu a novela por causa do viés espiritual – a partir de agora, Jayme Matarazzo vai interpretar um Daniel em espírito, um fantasma mais camarada do que o Alexandre (Guilherme Fontes) de A Viagem (1994).

Que medo eu sentia do Alexandre no Vale dos Suicidas, ui! Mas gostava de ver. E era confortável pensar que, um dia, eu poderia passear naquele Além de grama verdinha com um espírito charmoso, feito a Diná (Christiane Torloni) com o Otávi0 (Antonio Fagundes).

Muita gente, até mesmo quem não segue o Espiritismo, tem interesse em saber se há alguma coisa depois do fim. E acho que é de certa forma terapêutico acreditar que há algum sentido em tudo isso, e que a vida é mais do que “nasceu, viveu, morreu e acabou”.

Na primeira aula de ioga que fiz na vida, o amável mestre me disse: “Dá para perceber que você está fazendo ioga há muitas encarnações.” Fiquei muito orgulhosa do meu espírito! – não é todo dia que se recebe um elogio metafísico, não é mesmo?

Enquanto a gente não se depara com a morte – e descobre, enfim, o que haverá –, acho que vale o acalanto do elogio metafísico ou a imagem do Além agradável impressa pela ficção. Mas e se eu chegar lá e não tiver nada? No vazio, na ausência de consciência, é capaz que não importe tanto. E talvez eu nem lembre que assisti A Viagem.

(*) A coluna Quanto Drama! é publicada aos domingos no suplemento TV do Estadão.