"Não existe humor a favor"

Estadão

19 de abril de 2010 | 13h39

Marcius Melhem como o Pedrão, em cena de Os Caras de Pau. Crédito: Divulgação

Marcius Melhem como o Pedrão, em cena de Os Caras de Pau. Crédito: Divulgação

Patrícia Villalba/RIO

Leia a entrevista que o ator, humorista e autor Marcius Melhem concedeu ao suplemento TV, publicada ontem, na qual ele mostra que não é só uma carinha engraçada da TV e diz: “Não existe humor a favor. Humor é contra.”

É verdade que não existe piada ruim, basta saber contar?
Não concordo. Existe piada ruim sim, que nem Jesus salva. Na verdade, estou defendendo a classe. Dizer que basta saber contar é mais ou menos o mesmo que dizer que se o texto for ruim a gente conserta – o que significaria que o texto é uma coisa menor, e não é. O texto é fundamental, e te digo isso como ator. Quando vem uma coisa sambada, qualquer nota, a gente se vira, mas não chega aonde queria chegar.

Concorda que depois do Twitter, toda piada boa precisa ter até 140 caracteres?
Mesmo antes do Twitter. Tenho uma teoria de que menos é mais. Entrei no Twitter há cinco meses, e quando descobri o que era, curti. O Nós na Fita (que apresenta uma vez por mês no Rio) é um show que escrevi com 1h40 e cortei até 1h10. O trabalho que faço de texto com as minhas equipes (na TV), é de enxugar. Se você corta, só sobra o filé.

De onde veio o boato de que você é filho do Chico Anysio?
Sei lá… Devem ter pensado ‘tem sobrancelha grossa e é humorista, só pode ser filho do Chico Anysio!’.

Qual foi a última vez em que riu de si mesmo?
Ah, todo dia. Rio de mim mesmo o tempo todo. Sempre se levar a sério não dá, né? No fundo estamos aqui só a passeio, isso é uma grande brincadeira. Meu escritório é cheio de brinquedos para eu não esquecer disso. Nesse sentido, a sociedade está muito careta porque todo mundo se leva muito a sério e todo mundo leva tudo para o pessoal. Se você faz uma piada sobre enfermeira, vem o sindicato das enfermeiras atrás de você. Vamos rir, gente! Não existe humor a favor. O humor é contra, é desconstruir, é olhar por outro prisma. Se você não trabalha com isso, não dá. Se não puder sacanear alguém, não estará fazendo humor. Claro que há um limite, e cada um tem o seu. Eu sei até onde eu vou, e procuro não ofender. Mas é preciso que as pessoas não se sintam ofendidas a priori. Senão, a vida fica muito dura.

Como se vira para fazer humor na era do politicamente correto?
Tudo é trabalhar com a responsabilidade de estar servindo a uma empresa – a Globo não é um brinquedinho meu. Mas tento dar minha contribuição para a coisa ficar menos careta, coloco um pezinho na porta de vez em quando, mas vou devagar. No episódio de hoje do SOS Emergência, por exemplo, o Ney Latorraca (Dr. Solano) aparece com a bunda de fora. Mas vai ao ar às onze horas da noite de um domingo, então posso colocar o pé na porta. Tenho consciência da minha responsabilidade, porque queremos que fique de bom gosto. E tivemos o carinho de ligar para o Ney e perguntar se ele topava. E ele disse: “Claro, topo, vamos!” É uma encaretada que a sociedade deu e a gente precisa rever. Hoje, imagine, Os Trapalhões não existiriam – um chamando o outro de cabeça-chata, o Mussum tomando cachaça… Na França, nos anos 50, os cartunistas tinham um lema que era “nada é sagrado”. Vamos rir, minha gente, que a situação está “braba”.

O que seria, então, o tal “humor do bem”?
Não existe humor do bem, gente… Existe humor de bom gosto. Mas não quero ficar aqui classificando o humor, que seria uma besteira. Porque quando a gente fica classificando, parece que a gente é dono disso e a gente não é. Tudo isso sempre esteve por aí.

É mesmo melhor ser alegre que ser triste?
Claro que sim, é muito melhor! A alegria é melhor coisa que existe.

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