Jorge Gargia, o Hurley de 'Lost', diz ter chorado no último dia de gravação

Estadão

22 de maio de 2010 | 17h22

Crédito: Divulgação

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Quando as gravações de Lost terminaram, no último dia 24 de abril, Jorge Garcia, ator de 37 anos que interpreta Hugo Hurley, disse ter ficado desempregado.Em um texto em primeira pessoa, publicado hoje no site da revista Variety, Garcia lembra do teste para o papel, de como ele e os atores da séries viraram amigos e confessa que chorou com Mattwew Fox, o Jack, ao final das gravações. Garcia também revelou que as gravações do último episódio foram “perigosas, físicas e molhadas”.

Confira abaixo o texto traduzido. (Para acessar o texto original, clique aqui.)

Hurley diz adeus a ‘Lost’

Jorge Garcia escreve sobre o final da popular série

Por Jorge Garcia

Às 5 horas da manhã do dia 24 de abril, eu fiquei desempregado.

Eu havia acabado de finalizar meu envolvimento com a sexta temporada de Lost. O trabalho, que foi muito acima e além do que qualquer coisa que eu pudesse ter imaginado, havia acabado.

Quando fiz o teste para Lost, eu era um ator sem trabalho lutando para fazer um piloto de TV. Quando me encontrei pela primeira vez com os produtores, não havia nenhum material para mim, exceto algumas situações que eles tinham para o personagem do Sawyer. 

Eu me senti bem em relação ao teste, muito bem na verdade, tanto que passar já não era tão importante, porque eu sabia que eu não poderia ter feito nada melhor. Então, eu recebi uma ligação dizendo que eu faria um outro teste, e, neste, eles iriam escrever cenas especialmente para mim. Lembro-me de notar que eu era o único Hurley na sala de espera para fazer o teste. Logo depois, liguei para meu agente do estacionamento e disse: “Não sei o que isso significa, mas senti uma coisa boa.”

Quando fui contratado, não havia nem visto o roteiro do piloto. Tudo o que sabia era que se tratava de um programa do J.J. Abrams e que ia ser gravado no Havaí. Pensei que se não desse certo, pelo menos teria passado umas férias no Havaí.

Mudar para o Havaí era um sonho que virou realidade. Quando trabalhei no estande de revistas da (livraria) Borders, em Westwood, lembrei de ter visto uma foto do Kelsey Grammer em sua casa havaiana, na capa da revista Architectural Digest, e pensar que ter uma casa no Havaí era  uma boa referência para o sucesso. Nem dois meses no meu novo apartamento em Los Angeles, e eu estava tentando descobrir o que levar nas malas, para uma série que não tinha nem ideia de quanto tempo duraria. Agora, seis anos depois, ando ao redor da minha casa tentando descobrir o que embalar de todas as coisas que acumulei no Havaí durante a série.

Durante o piloto e o primeiro verão de gravações, nós do elenco fizemos amizade rapidamente. Depois de tudo, não diferente da premissa da série, nós literalmente nos encontramos em uma ilha tendo uns aos outros. Íamos para casa um do outro nos fins de semana e noites quando não estávamos gravando. Quando os episódios começaram a ir ao ar, normalmente nos reuníamos na casa de quem a série iria focar naquela semana para assistirmos juntos e para nos parabenizarmos. 

A gente não tinha informações sobre o que iria acontecer além do que a gente lia no roteiro a cada semana. Sabíamos que estávamos fazendo na TV algo que não era parecido com nada antes visto e cruzávamos os dedos na esperança de que encontrássemos um público que gostasse do que estávamos fazendo. 

A estreia da série trouxe números melhores do que nós antecipamos e lembro-me de ter dito para os outros atores no dia seguinte: “Espero que vocês gostem disso no Havaí, porque podemos ficar por aqui por um tempo.” 

Conforme as temporadas iam progredindo, momentos de reconhecimento nas ruas cresciam exponencialmente. Houve um tempo, durante a primeira temporada, em que tudo o que eu precisava fazer era amarrar meu cabelo para trás para ficar invisível. Obviamente, isso não resulta em nada para mim agora, nem usando um chapéu e óculos escuros. Às vezes, tanto Daniel Dae Kim como Terry O’Quinn comentaram como eles gostavam de desaparecer quando estavam comigo, já que eu seria único reconhecido. 

O Havaí tem sido um lugar maravilhoso para me esconder por seis anos. Às vezes eu quase conseguia me convencer de que Lost foi apenas um pequeno programa que fiz com amigos na selva. Sempre gostei de pensar em nós como os caldeireiros em Sonho de uma Noite de Verão, até que algo sacodiria a fantasia, e eu seria obrigado a reconhecer o quão grande a série foi se tornando, como quando foi indicada ao Globo de Ouro. JJ, sempre muito generoso, queria minha experiência para ser agradável durante a premiação, então ele me presenteou com o meu primeiro smoking personalizado. 

Penso que o tempo que passei sob as tendas do elenco será o que mais vou sentir saudade. Nós cantamos músicas para Terry e Naveen tocarem violão, fizemos um valente esforço de grupo para completar uma edição das cruzadinhas de sexta-feira do New York Times e jogamos muito Scrabble (jogo de palavras cruzadas de tabuleiro).

Meu último dia em Lost também foi o mais longo: 20 horas. Sem entrar em detalhes, posso dizer que as gravações foram perigosas, físicas e molhadas. Mas o que poderia ser mais apropriado? De que outra forma poderíamos terminar esse show épico sem uma épica maratona de gravações noturnas? No final de tudo, todos nós comentamos como esperávamos o final, para ser mais emocionante para nós, mas estávamos muito cansados para chorar. 

Admito que fiquei um pouco choroso com Matthew Fox. Agradeci por tudo que ele me ensinou, inclusive me levando em sua viagem ao Japão para ver o Green Day naquele primeiro verão de gravações. Na época, voar no último minuto para um país estrangeiro era sair da minha zona de conforto, mas, novamente, nada em Lost estava na minha zona de conforto.

Eu fiquei enrolando depois do tempo (no set), mesmo depois de já ter ficado para ver a gravação da última cena, a derradeira da série. Eu podia sentir a resistência diretor Jack Bender para gritar “corta” no último take. Na verdade, tenho certeza de que ele pediu mais um take da cena para adiar o inevitável. 

Ainda não caiu a ficha que tudo chegou ao fim. Talvez vou sentir isso quando o final finalmente for ao ar neste domingo. Ou talvez a ficha vai cair quando eu embarcar no avião no aeroporto de Honolulu pela última vez como morador do Havaí.

Não tenho nem ideia de qual será minha próxima aventura, só sei que esse trabalho será difícil de ser superado.

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