Nova classe C ainda não chegou a Malhação

Estadão

16 de agosto de 2012 | 15h10

Crédito: Raphael Dias/Divulgação

                                                                                                                                                                                        Tão bem representada nas novelas das 7 e das 9 da Globo, a nova classe C ainda não chegou à nova temporada de Malhação.

O ritmo da novelinha teen da Globo, há 17 anos no ar, mantém seu domínio dentro da zona sul maravilha do Rio de Janeiro. É bom de ver? Claro que é. Quem não aprecia um enredo contado naquele cenário onde o metro quadrado vai desbancando os parâmetros da Champs Elysée como um dos mais caros do mundo?

Mas o desfile de jovenzinhos bem-nascidos, com figurinos dignos de editoriais de moda, a melhor mochila, o melhor par de tênis e o melhor fone de ouvido, está ainda na era do folhetim mais clássico: com todas as honras que a produção possa render à era moderna, lá os mais abastados do PIB abocanham a maior fatia na narrativa do folhetim.

O Colégio Quadrante é hypado, instalado na zona sul carioca, bem contornado nas cores da quadra, nas carteiras das salas de aula e naquele conceito High School Music de armários individuais para os alunos.

Banda larga e 3G são protagonistas. O nerd Orelha, produtor e faz-tudo da TV Orelha, canal criado por ele na web, opera seus registros, downloads e conexões como alunos a quem, não faz muito tempo, bastavam lápis e borracha na rotina escolar. David Lucas, o garoto da foto deste post, ator que dá vida ao tal Orelha, é a melhor proposta do novo elenco até aqui. Sim, porque a essência da Malhação para a história da TV ainda está no papel de revelar novos DNAs à dramaturgia, e o garoto da TV Orelha, livre do estereótipo galãzinho, vale a aposta.

Para quem passou anos sem conferir Malhação e deu de cara com a novela esta semana, é certo que a imagem de André Marques tenha suscitado a dúvida: “será que eu perdi alguma coisa?” O apresentador do Vídeo Show volta a circular pelo horário de onde veio, agora no papel de um equivocado orientador vocacional. Sua missão é levar ao centro da trama uma pitada (ou saraivada?) de pastelão, item que a TV nunca foi capaz de desprezar. Seu carro desliza pela ladeira porque o freio não foi puxado, seus “alunos” fazem da restauração de uma praça uma guerrinha de tintas e a chuva estraga os planos do fraudulento orientador. Nem com todo o imbróglio, Marques consegue fazer graça. Beira o constrangimento.

Na busca por audiência, sai temporada, entra temporada, com classe C, AB ou D, o que atrai a molecada é o desfile da explosão de hormônios. Isso lá está, bem impregnado nos alunos, de idades muito próximas às de seus mestres – vide Leonardo Miggiorin e Elisa Pinheiro, a professora de Literatura. É ela quem propõe que a menina vá “ao” e não “no” banheiro e que estampa na lousa o verso “Tudo vale a pena, se a alma não é pequena”.

Olhando assim, até que não parece tão mal. Unir o cartão-postal do Rio a Fernando Pessoa pode dar a ideia, nem que seja só a ideia, de um bom programa.

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