Verso livre

Estadão

07 de maio de 2010 | 14h27

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“Abro a mala com esta chave mestre em cerimônias do tipo, se me permitem a brincadeira.” O verso, extraído do poema Epílogo, pode funcionar como uma degustação do espetáculo Um Navio no Espaço ou Ana Cristina Cesar, que estreia hoje (7) no Sesc Santana. Com base em um texto escrito por Maria Helena Kühner em 1996 (e adaptado por Walter Daguerre), a peça faz um mergulho radical na bela e dolorosa obra da poetisa carioca. Cartas, poemas, textos e diários são costurados (e, em determinados momentos, projetados no palco), formando um mosaico do imaginário de Ana Cristina.

“O espetáculo é um pouco como a conversa que acabamos não tendo”, diz um sereno Paulo José, que dirige a montagem e a protagoniza ao lado da filha, Ana Kutner. Mas ele é um protagonista discreto – o ator define o espetáculo como um “monólogo disfarçado”. A tal conversa com a poeta ‘não ocorreu’ em 1982, quando Paulo e ela trabalhavam com roteiros na Rede Globo. Ele escrevia o programa Caso Verdade, cujos roteiros eram seguidamente (e duramente) criticados por Ana, então analista de textos da emissora. Em 29 de outubro do ano seguinte, já fora do emprego e depois de publicar o cultuado livro A Teus Pés, ela se atiraria do oitavo andar de um prédio em Copacabana.

Depois de uma emocionante temporada no Rio (Paulo e Ana costumavam ser procurados após as apresentações por conhecidos e admiradores da poetisa), a peça chega a São Paulo para uma curta temporada.

Esta é uma oportunidade não só para conhecer melhor a poesia de Ana Cristina, mas para ver um ator veterano em pleno processo de reinvenção como artista. Há 17 anos, Paulo José luta contra uma doença degenerativa grave, o mal de Parkinson. O que, a princípio, é uma grande limitação para um ator em cena, vira – nas mãos de um mestre – um caminho para o aperfeiçoamento de técnica. (Guilherme Conte)

ONDE: Sesc Santana. Teatro (349 lug.). Av. Luiz Dumont Villares, 579, 2971-8700.
QUANDO: 6ª e sáb., 21h; dom., 19h30. 75 min. 14 anos.
QUANTO: R$ 20.

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