Sonhar, um direito inegociável

Estadão

18 de agosto de 2010 | 18h38

donka

Daniele Finzi Pasca é uma daquelas figuras que deveriam ser chamadas de “poeta”, tenham ou não escrito sequer um poema em sua vida. Donka — Uma Carta a Tchekhov, que o Teatro Sunil apresenta até 6ª (20) no Sesc Pinheiros, é poesia pura. Criado sob encomenda do Tchekhov International Theatre Festival para integrar as homenagens de 150 anos do nascimento de Anton Tchekhov (1860-1904), o espetáculo de circo-teatro passou pelo FIT, em Belo Horizonte, e termina de cumprir curta temporada em São Paulo.

Difícil a tarefa de abrir as portas do universo tchekhoviano, um mestre da escrita, sem utilizar a palavra como chave. Ao afastar-se do caminho óbvio, Donka acaba por funcionar como um caleidoscópio de fragmentos, em que a vida e a obra do dramaturgo costuram-se para tecer imagens. E aí as artes circenses descortinam-se no que têm de melhor, evocando as mais ancestrais tradições do picadeiro.

Esta alma circense, vital no espetáculo, está intimamente ligada com a quebra do compromisso com qualquer pretenso realismo. Estão ali palhaços, trapezistas, malabaristas. Do riso vai-se à comoção em instantes. Prende-se a respiração com um bailado cheio de desfaçatez a alguns metros do chão para, pouco depois, se render a um atrapalhado sapateado. Há quem aponte, não sem razão, certa vacuidade dramatúrgica; mas esta condição parece ser não uma omissão, e sim uma deliberada escolha de caminho criativo. É um espetáculo que pede, gentilmente, uma entrega de olhar.

Donka parece, assim, reduzir a distância entre o que sonhamos e a realidade que nos cerca. Ainda que por apenas um par de horas, o teatro vira aquele terreno sagrado em que a imaginação é o valor mais central e inegociável, atestado maior da presença do humano dentro do animal homem. Enquanto existirem artistas a nos fazer duvidar das “verdades” que o mundo e a vida impõem — chegamos a ser seduzidos pela ideia de que a gravidade é uma sub-reptícia convenção –, o teatro e o circo exercerão este perene fascínio que lhes é tão essencial.

Sesc Pinheiros. Teatro (1.010 lug.). R. Paes Leme, 195, 3095-3400. Hoje (18) a 6ª (20), 21h. R$ 20.

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