Sonhar da roça

Estadão

31 de maio de 2010 | 15h58

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Certos artistas têm como prática essencial um compromisso estético com o velho ditado anglo-saxão, que reza que “Deus está nos detalhes”. O caráter ‘eclesiástico’ da afirmação justifica-se por uma devoção de ares um tanto quanto religiosos a uma encenação atenta aos preceitos do artesanato. Acorda, Zé! A Comadre Tá De Pé!, que o grupo carioca Moitará traz ao Teatro Cacilda Becker, é como um daqueles pratos delicados, que têm que ser lentamente cozidos em fogo baixo. A pressa, ali, não cabe — o perfume de erva cidreira que toma conta do saguão do teatro não é à toa.

Escrever muitas palavras sobre este espetáculo chega a ser quase um contrassenso, uma vez que se fosse necessário definí-lo com uma palavra, seria “simplicidade”. Uma boa história, contada com uma beleza límpida, sem excessos ou ornamentos desnecessários. Essa talvez seja uma das chaves de entendimento para se aproximar do trabalho do Moitará, que desde 1988 centra suas atenções sobre o trabalho do ator a partir do uso de máscaras. Palavra e gesto se entrelaçam com aquela calma própria dos equilibristas.

Acorda, Zé! nasce como uma ponte entre a tradição do teatro de máscaras e o universo popular brasileiro. Fortemente arquetípica, a natureza do trabalho com máscaras se presta muito bem à construção dos ‘tipos’ picarescos presentes em sua escritura teatral — esta foi a descoberta sensível que decorou o berço que embalou as primeiras noites do grupo. É como um feixe de pêndulos, sempre oscilando entre pólos aparentemente distantes entre si. Se, por um lado, esses tipos como Zé-di-Riba representam valores característicos de um imaginário essencialmente brasileiro, por outro conectam-se com características próprias do comportamento humano, transcedendo fronteiras geográficas ou culturais.

Outro pêndulo balança pelo eixo temático em que a fábula é construída. Zé-di-Riba, rabequeiro mais afeito à rede que à enxada, sonha em noite de eclipse que vai procurar trabalho na casa do Rei. Zé sonha com a possibilidade de enriquecer repentinamente, sem que suor seja derramado. Essa mitologia da ‘grande virada’, de um ato repentino — divino ou não — a solucionar as mazelas, está tão presente em lendas medievais como na esperança dos personagens de Graciliano Ramos ou dos romances de John Steinbeck. Atemporalidade, universalidade, aquilo que é humano — é aí que o teatro do Moitará se situa.

Apostando nesta via da simplicidade como percurso, o grupo constrói um belo passeio pelo universo caipira, com jeito de causo contado ao pé da fogueira. Acorda, Zé!, afinal, é um delicado reivindicar ao nosso direito de sonhar. Em um mundo cada vez mais distante da metáfora, o imaginário permanece como um terreno sagrado no qual a poesia é a forma mais digna de resistência.

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