Renovação, afinal?

Beth Néspoli

27 de março de 2010 | 01h46

No Caderno 2 de hoje, 27, falo sobre uma possível renovação do Festival de Curitiba, que vem perdendo relevância, com a curadoria que já começa a apontar no Fringe. É uma aposta. Tomara que ocorra e abra espaço para uma mostra curitibana dentro do festival com grupos como a Cia. Brasileira de Teatro, a Vigor Mortis, a Armadilha, a do Marcos Damaceno, o trabalho do Edson Bueno, os grupos que organizaram a Mostra Pequenos Conteúdos, entre outras que posso ter esquecido agora.

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É preciso acabar com a indiferenciação do Fringe, atualmente tomado por produções curitibanas – 173 das 374 que participaram este ano. Um festival deveria ser um momento especial, uma espécie de suspensão na rotina das temporadas, para a  observação do trabalho de artistas que estão buscando aprimoramento e avanço de linguagem, e que, por isso, valem ser vistos mesmo quando não alcançam a qualidade desejada. Não se exclui aí a importância da diversidade. Das comédias aos musicais para o grande público, a cena teatral deve ser ampla e democrática. Cada vertente do teatro deve ter seu espaço. Mas é preciso que sejam diferenciados até para que o público possa fazer  escolhas conscientes, sejam elas quais forem.

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Não se justifica o trabalho de estruturar um festival, evento que requer patrocinadores e uma logística trabalhosa, para abrigar  o teatro de consumo, que pode ser visto a qualquer momento, em toda parte, entretenimento este que trabalha com recurso já gastos, facilmente reconhecíveis, com olhos voltados para a bilheteria e com o objetivo primeiro de agradar.  Um espetáculo assim pode alcançar um bom resultado dentro do que se propõe, da mesma forma que, no outro extremo, a experimentação pode naufragar em não-comunicação. Não é de qualidade final que se fala, ainda que seja sempre desejada, mas de ponto de partida, de inquietação. Foi justamente a presença da inquietação nas primeiras mostras o que abriu e sedimentou o espaço do Festival de Curitiba no calendário cultural nacional. Tomara que essa posição possa ser mantida. Seria bom para o teatro, para o festival e para o público que o frequenta a cada ano.