Drama carregado em ‘Psicose 4h48’

Beth Néspoli

27 de março de 2010 | 00h41

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Os atores Marcelo Bagnaro e Rosana Stavis em Psicose 4h48

Fui ver Psicose 4h48. Para mim, como espectadora, a abordagem escolhida não resultou bem. Já vi esse texto interpretado por Isabelle Huppert quase imóvel (quem já passou pelo sofrimento de estar diante de alguém realmente deprimido reconhece aquela postura de imobilidade dolorosa), mas sei que já foi encenada de outras formas. Numa delas, o público ficava sobre balanços individuais e instáveis no palco, e, em torno deles, vários atores traziam as “vozes” desse ser fragmentado – em estado de dilaceração interna, dor, sofrimento -, um grito de socorro e horror. Não acho que exista uma forma “certa” para expressar em cena, dar corpo a determinado texto, seja ele qual for. Todas as tentativas podem ser válidas. Há as que ampliam e intensificam a expressividade de uma obra, há as que reduzem sua polifonia.

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A opção da montagem, dirigida por Marcos Damaceno, que tem Rosana Stavis no papel da suicida, foi por dramatizar a cena, carregando nos sentimentos, numa atuação que os traz para o primeiro plano. Poderia ser bom, mas o efeito foi oposto, tirou a força do texto que por si só tem muita potência para fazer o espectador compreender a dor daquela mulher. Ao carregar as frases de um esgar de sofrimento, de histrionismo emocional, entre lágrimas e gargalhadas, contraditoriamente  a atriz perdeu uma potência expressiva que possui como intérprete.
 É uma encenação que não deixa brecha para o espectador entrar.

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Quando o ator não derrama seu sentimento sobre a plateia, quando não se excede na interpretação, ele leva o espectador a fazer um movimento em sua direção de buscar entender o que há além do que diz, é como se a gente pudesse vislumbrar por meio do que vem à tona todo um abismo por trás da palavras. O sugerido é sempre interessante porque o sentido é completado pelo receptor a partir de sua história pessoal. No sentido oposto, quando o intérprete derrama demais sobre o público o que sente, provoca uma espécie de  afastamento ou chama atenção para si e não para o que expressa. Claro que o risco oposto ao de externar sentimentos é o da ausência de expressão, o texto monocórdio. Optar pela palavra seca, explorada como signo, pede uma outra qualidade de atuação da qual, pelo que vi em Árvores Abatidas, a atriz é capaz.

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Não parece faltar talento à dupla (diretor e atriz) para explorar uma partitura vocal expressiva  e desdramatizada. Foi mesmo uma opção que, na minha opinião, não alcançou o efeito desejado. Difícil compreender as mudanças de tom – ora histriônicos, ora contidos – que pareciam seguir uma ordem aleatória, e não uma compreensão e elaboração estética, do fluxo interno da personagem nesse texto que é jorro. Mais difícil ainda compreender o pensamento que fundou o desenho dramático do médico interpretado por Marcelo Bagnaro, cujas gargalhadas forçadas, desmedidas, soavam descabidas na relação estabelecida. Bem, Sarah Kane não é escolha de quem busca facilidade. De minha parte, não deixaria de ver outros trabalhos dessa equipe de criadores.