Perder-se nas coisas

Estadão

13 de agosto de 2010 | 19h10

 

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“História de aparente mediocridade e repressão”. Este é o subtítulo que Caio Fernando Abreu conferiu ao conto Aqueles Dois, uma pequena joia que a companhia Luna Lunera, de Belo Horizonte, tomou como base para o espetáculo homônimo que passa amanhã (14) e domingo (15), às 21h, pelo Sesc Santo André, como parte do 5º Festival Palco Giratório do Sesc. E é, de fato, uma história de aparente mediocridade e repressão — e também o oposto disso. É uma história de amizade, amor, solidão, da possibilidade do encontro.

Com rara felicidade encontrada em transposições da obra de Caio F. para o teatro, os mineiros do Luna Lunera costruíram um delicado origami em cena. A leitura do conto, algumas horas de pois da peça e com as imagens ainda vivas na retina, teve um efeito desconcertante sobre este repórter. As frases estavam todas lá, inteiras, torrenciais. Mas de uma forma totalmente distinta, não uma desconstrução, mas uma reconstrução; parágrafos que dobram-se sobre si mesmos, cenas que se descortinam por detrás de outras, sugestões de formas. E é precisamente aí que reside o espírito do espetáculo.

Em Aqueles Dois, a peça, não é a história contada por Caio F. que importa, no fundo; tampouco a forma como ela é narrada — quase um paradoxo, uma vez que o alicerce do espetáculo é o texto original, em grande medida intocado. O grande feito do espetáculo está no fato de que ele, afinal, é a tradução de um imaginário. A obra de Caio sempre representou um desafio aos críticos mais afeitos a classificações, por conta de seu caráter camaleônico, abrigo de contrastes, por vezes, aparentemente inconciliáveis. Espelho natural de uma personalidade também múltipla, caleidoscópica, evidenciada pela pluralidade de seus incontáveis e apaixonados amigos. Uma escrita essencialmente visceral, fruto inequívoco de uma alma inquieta.

Esta é a ambivalência primeira de sua escrita. Se, por um lado, seus contos estão completamente imersos em um tempo e um espaço claramente determinados — o universo oitentista em um país periférico e seus enfrentamentos, utopias, os liames de todo um mundo que se refazia –, sua sensibilidade tão particular atravessou a espessura destas nuvens e atingiu a atemporalidade própria de uma expressão tão batida, mas tão precisa: a tal “condição humana”. Aqueles Dois fala, afinal, sobre o encontro. O encontro possível, esta cumplicidade tão humana que faz dois solitários tão complementares reconhecerem-se imediatamente em meio ao “deserto de almas” pelo qual a vida nos escapa, entre carimbos, “bom final de semana” e a garrafa térmica do cafezinho.

Talvez esteja aí a razão pela qual esta peça converse não com o público, mas com os tantos públicos aos quais se abre. A precisão das escolhas na construção cênica encontra um registro que deixa clara a antonímia entre sentimento e sentimentalismo. Os atores tecem os fios que costuram a história não com seu conteúdo ou forma, mas com o resíduo da experiência. A cuidadosa construção do grupo se ampara na ressonância íntima da escrita de Caio. “De tudo fica um pouco”, diz o poema de Drummond. De tudo, ali, fica um muito.

Em meio a essa lucidez embriagada da memória, somos transformados em espectadores mais que privilegiados do nascimento destes fios invisíveis que unem aquelas almas em meio ao desesperançado mundo das gavetas da repartição. Os pequenos instantes, átimos de segundos em que percebemos não estarmos sozinhos frente aos perigos do mundo. Se a dignidade é acossada a cada dia, às vezes impossível solução de tudo está em um abraço de peito aberto em alguém que partilha dores e sentires. Embora “nascimento” talvez seja uma incorreção, já que a cumplicidade que se estabelece entre Raul e Saul parece detonar outro aparente paradoxo. Ainda que aquela união crescesse um pouquinho a cada dia, tão discretamente a ponto de escapar-se no cotidiano em uma aquosa fugacidade, Aqueles Dois trata do tipo de ligação entre almas que, uma vez feita, deixa de ter começo ou fim. É um sentimento circular do mundo; infinito, inquebrável. Simplesmente é.

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