Palavra e utopia

Estadão

20 de janeiro de 2011 | 22h59

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Quando os jurados deixam a sala em que foram instados a chegar a uma decisão, encerrando o espetáculo Doze Homens e Uma Sentença, fica-se com uma certa sensação de embevecimento. Há, essencialmente, um espírito clássico na leitura construída por Eduardo Tolentino de Araújo sobre o texto de Reginald Rose.

A peça, que teve sua estreia em 1954, é muito próxima do roteiro do eterno e fundamental filme homônimo de Sidney Lumet, de 1957, estrelado por um inspirado Henry Fonda. Um grupo de homens forma um júri que deve chegar a um veredicto unânime sobre um caso de assassinato em primeiro grau. Um jovem negro, pobre e morador de subúrbio, é acusado de ter esfaqueado o próprio pai. Sua condenação o leva inapelavelmente à execução, por meio de cadeira elétrica.

A visão daqueles homens, sérios e rudes em seus ternos, evoca a imagem de um senado Antigo, com seus labirintos retóricos em busca de uma Verdade. Os jurados enfrentam-se, e tornam-se indissociáveis o embate de idéias e uma constante pulsão de agressividade física, promessa ininterrupta de algo que rompa os limites da tensão. Aqueles homens vão decidir, afinal, o destino de um semelhante. Assim se constrói o debate – e não deixa de haver certo charme no fato de a “dúvida razoável” tenha sido suscitada por um jurado que é arquiteto.

Rose constrói suas personagens com uma habilidade que faz deste um grande texto. É notável a maneira como, ao mesmo tempo em que vão sendo reveladas características determinantes de cada um deles ­– uma relação conflituosa entre pai e filho, a infância em um bairro violento ou um abjeto e virulento racismo –, e por isso mesmo individualizantes, esses homens podem (e devem) ser lidos como alegóricos. O jurado que é um humilde pintor de paredes, por exemplo, cioso do respeito aos mais velhos com reverente devoção, é um homem, mas também é muitos homens: é todos os outros iguais a ele, em qualquer outra grande cidade. Homens raivosos (os “angry men” do título original), que no início da peça estão prestes a executar um homem sem pensar muito sobre isso.

A montagem de Tolentino carrega alguns os traços fundamentais de seu trabalho (que, em certo sentido, também podem ser vistos como “clássicos”): profundo respeito ao texto, precisão cênica, perene elegância, compromisso inegociável com a beleza do que é visto e, sobretudo, uma capacidade constante de extrair sempre algo a mais de seus atores. 

Há de se louvar a sensibilidade e o empenho (pode-se supor, no mínimo, a necessidade de uma complexa operação logística) em juntar no mesmo palco mestres do ofício como Norival Rizzo, Oswaldo Mendes, Brian Penido Ross ­– e aqui faz-se necessário reconhecer a força e o equilíbrio do elenco como um todo.

E há ainda José Renato, de volta ao abismo do palco após meio século. Que privilégio é poder ver atuando o homem que, ao lado de Augusto Boal, reinventou o teatro brasileiro no palco do Teatro de Arena. E que nos últimos cinquenta anos dedicou-se de corpo e alma ao teatro, brilhante diretor, criador constante e incansável.

Tolentino explora as possibilidades da arte da atuação ao permitir que testemunhemos tudo o que se passa na sala enquanto a ação dramática concentra-se sobre um ou mais personagens. É este precisamente o “limite narrativo” do filme, uma vez que a câmera coreografa e dita o percurso do que se pode ver. Aí, em uma narrativa somente possível no teatro, Doze Homens e Uma Sentença, o espetáculo, mostra-se belo, instigante e atento aos detalhes. Uma peça de atores – grandes atores.

Doze Homens e Uma Sentença. CCBB. Teatro (125 lug.). R. Álvares Penteado, 112, 3113-3651, metrô São Bento. 4ª a sáb., 19h30; dom., 19h. R$ 15. Até 6/2.

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