O talento da atriz

Beth Néspoli

24 de março de 2010 | 18h09

psicose_pronta
A atriz Rosana Stavis na peça Psicose 4h48
 

Ontem fui ouvir uma leitura dramática do texto Antes do Fim, de Marcelo Bourscheid, dirigida por Marcos Damaceno. Rosana Stavis e Edson Bueno estavam no elenco. O texto integra uma série de produções do Núcleo de Dramaturgia do Sesi do Paraná. Um projeto importante na medida em que coloca autores iniciantes sob a orientação de diretores experientes. Anteontem, eu já havia acompanhado o ensaio da leitura dramática realizada pelo diretor Roberto Alvim – neste caso, já uma encenação – de outro texto, o primeiro de Paulo Zwolinski, Como se Eu Fosse o Mundo.

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É um prazer apreciar a qualidade de energia que Rosana coloca na voz, as pausas, a delicadeza com que traz as palavras para o palco. Em nenhum momento tenta carregá-las de sentidos, busca com maneirismos vocais impregná-las daquela emoção que leva ao grito e à rouquidão e põe a perder a palavra. Qualidade que Edson Bueno também alcançou em muitos momentos.

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Seria leviano analisá-los, afinal, ouvi uma única leitura em meio à maratona do festival, mas os dois textos parecem fazer uma espécie de “operação” sobre mitos, trazendo-os para o laico e prosaico mundo atual. No caso de Como se Eu Fosse o Mundo, o mito de Medeia é relido a partir da trajetória de um casal que gira em círculos sobre questiúnculas, do qual não se espera brotar a pulsão vital que leve a uma tragédia.

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Senhora dos Afogados, de Nelson Rodrigues, ressoa em Antes do Fim, num texto que passa por operação estética semelhante. O reflexo dessas tragédias míticas nos primeiros textos desses autores parece positivo. Cultura se constrói camada sobre camada. Conhecer o que foi feito, dialogar com o passado, é trampolim necessário para saltar mais alto que a geração anterior.

 
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Bem, agora é começar a maratona do dia. O festival só termina no domingo.