Macbeth e o inusitado chá das bruxas

Beth Néspoli

27 de março de 2010 | 01h10

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Renata Sorrah em Macbeth, de Aderbal Freire-Filho

Não tinha visto a montagem de Macbeth dirigida por Aderbal Freire-Filho no Rio. Vi em Curitiba. A primeira cena me fez afastar as costas da cadeira e sorrir. Surpreendi-me com aquelas velhinhas tomando chá. Claro, é isso! Quem, afinal, leva os homens à guerra, quem sempre está por trás das disputas de poder senão uma elite econômica que toma seu chá tranquilamente? É uma possibilidade de leitura que pode dar sentido a todo o espetáculo. Por que levar um clássico ao palco? Para dizer o quê sobre o nosso tempo? Ter um pensamento fundador pode ampliar a ressonância de um texto conhecido. O chá de ‘saquinho’, um dos elementos que marcam uma ‘mistura’ de tempos na encenação, ainda contribui para uma associação com a manipulação de títeres, apropriada para a ação das bruxas e seu poder manipulador.

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A partir daí, poderia ganhar o maior sentido os movimentos contraditórios de Macbeth. Afinal, ele é impulsionado para o crime, por sua ambição despertada pelas bruxas, tanto quanto para o remorso, por seus valores patrióticos e nobres de guerreiro.  Não dá para esquecer que numa das primeiras cenas da peça, Shakespeare faz questão de descrever sua fúria na batalha, a forma como dilacera inimigos no fio da espada. O sangue, a carnificina, cabeças decapitadas, homens mutilados eram imagens que jamais tirariam o sono de Macbeth, claro. Um mero assassinato jamais o levaria a ter visões. A culpa vem da traição cometida aos seus próprios valores de nobre guerreiro. Shakespeare era realmente um gênio, porque uma boa montagem de Macbeth leva o espectador a sentir a um só tempo horror e compaixão por esse homem que hesita, é tomado pela ambição, comete crimes horrendos, mas em nenhum momento consegue usufruir do p0der conquistado. Logo após o assassinato, já deseja que o Rei, morto, pudesse ouvir as batidas na porta do castelo. Ao assumir o trono, percebe que não há mais volta e na mesma noite que elimina outros inimigos sofre com a visão do rei morto, fraqueza que provoca o desprezo de sua mulher. Ambos não têm  paz. Como um joguete nas mãos das bruxas, Macbeth se debate entre impulsos contraditórios, enlouquece de fúria e se percebe só, sem amigos, desejando a própria morte. E, não menos importante, leva seu reino à bancarrota.

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Daniel Dantas, no papel de Macbeth

No Macbeth de Daniel Dantas, pelo menos no palco do Guaíra, foi difícil acompanhar essa oscilação e a curva dramática, da hesitação inicial, passando pela ambição desmedida até à solidão do tirano. Até as falas, não sei se pela dificuldade de adaptação espacial – no Rio estavam num teatro muito pequeno – chegavam emboladas à plateia e era difícil entender, sobretudo as frases ditas em momentos de fúria, de exacerbação, e não são poucos. Não era um problema só dele, mas de boa parte do elenco. A exceção fica com Renata Sorrah. Era possível compreender cada palavra dita por ela com muita clareza e também os movimentos internos da personagem, que faz outro caminho, da firme convicção, da fragilização diante do inesperado de não poder usufruir do poder, chegando até à loucura.

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Na sessão que acompanhei, a tensão e a qualidade daquela inusitada cena das bruxas não se sustentou na encenação. Diante da irregularidade das atuações, foi difícil manter a atenção concentrada naquele grau provocado pela cena inicial.