Conversa de improviso

Estadão

07 de outubro de 2010 | 18h53

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No espetáculo solo, Omar Galvan constrói histórias com referências literárias
Foto: Divulgação

Na estrada desde 2000, quando deixou a Argentina para improvisar mundo afora, Omar Galvan já passou por 16 países da América Latina e Europa. Com 16 anos de estudo sobre improvisação, seu trabalho já é referência para diversos grupos, inclusive no Brasil. Em 2008, ele esteve por aqui para ajudar o Jogando no Quintal na criação do seu espetáculo de longo formato, o Caleidoscópio.

Na semana passada, ele desembarcou em São Paulo novamente para fazer uma única apresentação do seu show solo de improvisação e para dar cursos e workshops no Quintal de Criação, espaço da Cia. Jogando no Quintal. E no intervalo entre uma coisa e outra, ele encontrou tempo para receber o blog de Teatro para uma entrevista, onde falou um pouco da carreira, de seu espetáculo e do bom momento da improvisação por aqui. Antes de deixar o País, Galvan faz uma participação especial no espetáculo Improvável, da Cia. Barbixas de Humor, hoje à noite.

Confira abaixo os principais trechos da conversa.

P | Conte-nos um pouco da sua história como improvisador.
R | Em 1994, eu já estudava teatro e acabei fazendo uma oficina com um improvisador conhecido na Argentina, o Mosquito Sancineto. Eu gostei e segui estudando, até que em 1996, eu e outros atores montamos uma companhia chamada Sucessos Argentinos. Nos apresentávamos em bares e fazíamos um formato diferente do Match (característico pela disputa entre duas equipes), por questões de problemas que haviam com direitos autorais, na Argentina. Fizemos algum sucesso, tanto que, em 1998, fomos convidados para participar do campeonato mundial de improvisação, realizado na França. Ali nos tornamos a primeira companhia latino-americana a participar em campeonatos fora do país. Daí, em 2000 eu deixei o grupo para viajar sozinho.

P | Foi aí que surgiu a ideia do espetáculo solo?
R | Sim. Na verdade, no início eu não me atrevia a me apresentar sozinho. Acabava dando cursos e oficinas para outros grupos e me apresentava com eles. Até que, quando fui ao Panamá, vi que ninguém por lá conhecia a improvisação e acabei fazendo uma pequena apresentação sozinho. Ali nasceu a ideia do solo que, de lá para cá, mudou muito.

P | E o que mudou desde então?
R | No início, o espetáculo era muito mais tímido. Eu era mais tímido. Com o tempo, ele foi ganhando uma estrutura mais elaborada, à medida que eu começava a trazer para dentro dele as influências literárias.

P | Na improvisação, o grande desafio é conseguir atuar em grupo, conseguir aceitar a ideia do outro. Qual o desafio de se fazer um improvisação solo?
R | No solo eu realmente não tenho essa interação, não estou sendo alimentado o tempo todo, como é num espetáculo em grupo. Porém, a peso sobre minhas costas é maior, porque sou integralmente responsável pelas histórias e pela condução do espetáculo. Em grupo, essa responsabilidade é dividida. Além disso, em grupo é possível respirar, porque não estou o tempo todo em cena, enquanto que no solo eu tenho que fazer o show inteiro sem pausas. Mas o desafio maior é fazer um tipo de improvisação que é muito particular, que é uma forma muito íntima de expressão. Não falo da estrutura, falo da forma como eu expresso os sentimentos, que é muito minha mesmo.

P | Como você escolhe e como estuda os estilos literários que vão aparecer no show?
R | A maioria dos estilos que integram o espetáculos são baseados em autores e movimentos literários que eu gosto. Então não sei se estudar é o termo certo. Eu leio algo e paro para pensar naquilo que mais me chama atenção naquele autor. Gosto muito de Borges, por exemplo. Pego aquilo de mais peculiar de suas obras, como a obsessão pelo tempo, a forma de construir as frases, e uso isso para estilizar a história. Mas não é um estudo. Eu poderia fazer o estilo Paulo Coelho, por exemplo, com certeza daria certo. Mas não quero ter de ler cinco livros dele para decupar aquilo que lhe é peculiar. Então me atenho àquilo que eu gosto, por isso é um espetáculo muito particular.

P | Você não pensa então se o público vai gostar, ou se o público conhece determinado autor?
R | Sim. Penso que muito mais gente vai conhecer e se identificar com Borges na Argentina que no Brasil. Então o que faço é deixar de lado um determinado estilo, dependendo do lugar onde vou. Porém, isso não é uma preocupação muito grande da minha parte, porque penso que tenho que dizer e fazer aquilo que quero. Além do mais, se a improvisação tiver qualidade, se for interessante, mesmo sem conhecer as pessoas conseguem desfrutar daquilo. Por exemplo, eu gosto muito de um autor americano chamado Raymond Carter. Sei que numa plateia só algumas pessoas devem conhecê-lo, então o que faço é incorporar aquilo que gosto nele na minha forma de atuar.

P | Você faz o estilo bíblico. Como é brincar com isso? Como o público recebe?
R | Eu sou muito crítico do mundo católico apostólico romano. E no show faço esse estilo de forma muito irônica. E há países onde a sensibilidade com o tema é maior, a ponto de as pessoas ficarem ofendidas. É o caso, da Itália, por exemplo. Uma vez, no Equador, algumas pessoas levantaram e foram embora quando fiz esse estilo. O que aprendi então é que, dependendo da cultura, é preciso pegar mais leve, ser menos ácido.

P | É o caso do Brasil?
R | Não. Aqui as pessoas são mais tolerantes com esse tipo de humor. Conseguem apreciar sem se ofender. No México também é assim.

P | Falando um pouco de Brasil, como vê o crescimento da improvisação por aqui?
R | O Brasil está vivendo um momento especial, de crescimento da improvisação não somente na difusão, mas também no sentido artístico. Isso não costuma acontecer em todo lugar. No Chile, por exemplo, a difusão da improvisação também está numa crescente, com dois programas de televisão. Mas o crescimento artístico por lá está um pouco atrás. Enquanto que aqui surgiram espetáculos muito bem elaborados, como o Mágico de Nós e Caleidoscópio.

P | Para você, qual a relação entre improvisação e humor?
R | Acho que essa relação existe. A improvisação não precisa necessariamente ser humorística. Ela pode ser diferente e acho interessante que os grupos trabalhem para fazer algo diferente. Porém, nunca se deve renunciar ao humor. Quando um improvisador se propõe a renegar o humor, ele corre o risco de criar coisas muito forçadas, muito pretensiosas, que não fazem muito sentido.

P | O Jogando no Quintal foi o primeiro a lançar por aqui um espetáculo de longo formato e agora alguns grupos já sinalizam estar querendo lançar show nesse formato também. Você vê isso como uma evolução natural?
R | Sim. Eu comparo com a música. Os espetáculos clássicos são o pop. Que deve existir para diversão, para trazer gente. O long form é como um jazz. É algo mais sofisticado. E quase todos os grupos que investigam a improvisação evoluem para o longo formato. Mas há uma tendência por parte de quem estuda a improvisação de rivalizar os dois formatos e renegar aquilo que não é longo formato. Para mim, isso é um erro, porque as duas coisas são necessárias para que os grupos não fiquem se repetindo.

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