Nós, russos

Estadão

24 de maio de 2010 | 15h56

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De suas viagens à Rússia, o diretor Marco Antônio Rodrigues trouxe uma sensação de que o povo de lá tem uma capacidade de rir de si mesmo muito parecida com a dos brasileiros. Esta já seria uma aproximação entre Casting, texto de Aleksandr Gálin que estreou 6ª (21), e o nosso universo. Mas ainda há outros pontos em comum.

No começo dos anos 1990, em meio ao frenesi da consolidação do capitalismo na ex-União Soviética, um anúncio em um velho jornal de província causa rebuliço: estavam à procura de mulheres com habilidades artísticas para trabalhar em um show em Cingapura. ‘Casting’, a propósito, é o nome que se dá ao processo de escolha do elenco de um filme. Aos poucos, fica clara a verdadeira ambição daquele estranho empresário — montar um show erótico.

“A peça é sobretudo um grande metáfora do artista, e sobretudo do artista, e sobretudo do artista nesse mundo da mercadoria em que vivemos, onde tudo é dividido entre o que serve e o que não serve”, afirma um cético Marco Antônio. “Nessa sociedade em que as instituições foram extintas, o mercado é a única coisa que realmente está organizada e funciona. A história de Gálin se passa na Rússia, mas diz muito sobre nós.”

Fundador e um dos mentores do grupo Folias desde 1998, Marco Antônio reúne nesta montagem alguns colegas de longa data (como os atores Flávio Tolenzani e Nani de Oliveira) e outros mais recentes, caso de Nicolas Trevijano, como um raivoso marido, e um impagável Caco Ciocler, no papel do tradutor do empresário ‘neomafioso’.

Se o momento que o inquieto Marco Antônio atravessa o leva a buscar novos caminhos como criador, as antigas convicções sobre teatro permanecem intocadas. ‘Casting’ é uma tragicomédia com ares de festa — e muita música (Dagoberto Feliz assina a direção musical). Porque uma crítica contundente não precisa ser sisuda.

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