Mirada: um esboço de balanço

Estadão

13 de setembro de 2010 | 11h00

Mi-Munequita

Diferentes festivais carregam consigo objetivos, naturezas e concepções distintas. De toda forma, seja lançando-se em um mergulho em determinado tema ou, no extremo oposto, com a intenção de traçar um mosaico plural e cioso das diferenças, a composição de uma programação com um grande número de espetáculos traz como essência uma confrontação de criações e olhares diversos.

A simples atitude de colocar lado a lado diferentes gêneros, formatos, tradições, idiomas e formas de narrar — em última instância, diferentes culturas — joga luz sobre os fios mais ou menos visíveis entre as maneiras de se fazer teatro pelo mundo afora. A busca por semelhanças e diferenças é o primeiro ato contínuo frente a um painel composto por 31 espetáculos, oriundos de 12 países.

A partir desta premissa, o primeiro mérito a se louvar na estreia do Mirada — Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas de Santos, organizado pelo Sesc, que começou no último dia 2 e se encerrou ontem, é a qualidade da curadoria. Atenciosa, aberta a diferenças e transparecendo um compromisso ético e estético para com um teatro que reflita tanto sobre o objeto como sobre si mesmo (com ênfase no teatro de grupo), a programação trilhou um caminho interessante em uma busca talvez não por respostas, mas sim em nome de formular questões acerca de uma possível ideia de identidade. O que significa fazer teatro dentro de um contexto ibero-americano?

A Argentina foi o país homenageado, com ênfase na figura do dramaturgo e diretor Daniel Veronese, referência no cenário argentino formador de uma geração posterior, também contemplada no evento — caso, por exemplo, da Teatro Timbre 4, de La Omisión de La Familia Coleman, um retrato dos efeitos devastadores da incomunicabilidade no seio de uma família que se dissolve ao redor da avó enferma.

A (im)possibilidade do encontro
Esta incomunicabilidade talvez seja um dos aspectos que une diversos dos espetáculos e grupos que se apresentaram no Mirada. Impossível não reconhecer seus efeitos, nas carregadas tintas do poderoso teatro de Gabriel Calderón e sua Cia. Complot, de Montevidéu, que trouxe Mi Muñequita (foto no alto). Num registro grotesco e farsesco, o cinismo explode os limites da violência ao tratar do abuso e da surdez rancorosa de outra família.

Tampouco se comunicam as personagens de Fiesta, radical experimentação conduzida pela chilena Trinidad González. Poema abstrato e iconoclasta sobre a vacuidade residual do desmantelamento de agregações sociais perpetrado pela ditadura chilena, ancorado em um sólido trabalho dos atores, levou o incômodo do espectador frente a uma não-narração a rompimentos com a postura passivo-burguesa que normatiza o comportamento tácito da platéia: um riso constrangido e nervoso, espectadores abandonando o teatro, a claustrofobia imposta pelo silêncio.

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Passado e presente: reflexão, revisões, espelho
De uma forma ou de outra, uma tensão para com o passado — em termos de tradição, legado ou ideia — pode ser identificada como possível fio de ligação importante no Mirada. Um olhar para o caminho que nos trouxe até aqui tem especial relevo em dois espetáculos que destoaram da qualidade predominante na programação. Jerusalém, dos portugueses d’O Bando, falhou na transposição dos limites rídigos de uma dramaturgia fria, não auxiliada por uma encenação oca e presa a efeitos, ao tratar da opressão em uma etérea cidade sitiada, com evidentes ressonâncias aos horrores perpetrados nos campos de concentração nazistas. A gélida recepção do público indica que esta seja talvez uma das poucas unanimidades negativas do festival.

La Odisea, dos bolivianos do Teatro dos Andes, debruçou-se por sua vez sobre a Odisséia, de Homero, sob um prisma contemporâneo e globalizado. O regresso de Ulisses é traduzido ali em denúncia contra as atrocidades do Vietnã ou da Bósnia, ou na difícil vida dos que tentam emigrar ilegalmente para os Estados Unidos, em uma coloração formada por tintas de uma ideia de latinidade. O espetáculo peca por soar naïf na busca destas referências — em um mundo em que Zeus fala em um celular pré-pago e chega ao fim dos créditos, quem sofre um duro golpe são a lírica e a poesia da obra de Homero. Certa deferência elegante é imprescindível ao abordar determinadas obras — O Idiota, de Cibele Forjaz, outro espetáculo que caiu nas graças do público santista, é um bom exemplo disso.

Vossa majestade, o ator
Por fim, outro ponto a se ressaltar é o alto nível dos atores, nas mais diferentes formas de se fazer teatro. Crítica e público foram unânimes em apontar esta qualidade como algo que saltou aos olhos, sobretudo nos espetáculos argentinos. É, certamente, a qualidade mais encantadora no monólogo Nada Del Amor Me Produce Endivia (foto acima), a mais grata surpresa vista pela reportagem durante o festival. María Merlino esculpe sua costureira como uma rara jóia, trabalhada com esmero e sensibilidade de artesão. Com uma doçura que arrancou aplausos em cena aberta, María fez do melodrama matéria-prima para uma delicada, porém forte poesia.

Fica, ao final, uma ótima impressão pelo que espera-se que seja apenas a primeira de seguidas edições. Uma programação consistente, aberta e, não menos importante, atraente, que levou as salas à lotação máxima em quase todas as apresentações. Pensando bem, é significativa a presença deste festival na cidade de Santos, cujo porto foi porta de entrada fundamental para tantos imigrantes que se misturaram para a formação deste povo. Uma grata novidade no cenário dos festivais de artes cênicas.

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