Maria Tendlau e o teatro no CCSP

Estadão

15 de fevereiro de 2011 | 13h44

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A fala doce e o olhar fundo, de uma mansidão monástica, parecem, inicialmente, que não vão acompanhar a velocidade do pensamento. Mas, após alguns instantes, a impressão se dissipa, entre sorrisos e raciocínios que se entrelaçam uns aos outros. Maria Tendlau é uma usina de ideias, em constante funcionamento. Nada escapa a um ar de inquieta curiosidade. Atriz, diretora, pesquisadora, pedagoga e agora nova curadora do Centro Cultural São Paulo, Maria coordenou a implantação do Projeto Teatro Vocacional, da Secretaria Municipal de Cultura, entre 2001 e 2004, experiência que resultou em uma dissertação de mestrado e um livro.

Com a responsabilidade de suceder Sebastião Milaré no cargo, Maria em pouco já chacoalhou a programação do CCSP. E já está às voltas com a idealização da programação especial de 2012, quando o Centro Cultural comemora 30 anos de idade. Ela encontrou um tempinho para conversar com a reportagem do blog sobre o que vem por aí neste que é um dos espaços mais queridos do público paulistano.

Queria que você começasse explicando as linhas gerais e os projetos da curadoria.

De um ano pra cá, pelo menos, as curadorias têm funcionado por eixos curatoriais bienais. Existe um eixo central, bem amplo, a que todas respondem, que é “Cidade, Arte e Cultura”, e a partir daí cada curadoria constrói o seu. Eu propus que trabalhassemos com um eixo que chamei de “Teatro: fachadas, largos e estruturas”.

A “fachada” é a programação que faz face à cidade. São espetáculos de boa referência, que passaram pela cidade… Também queremos retomar as estreias, perdemos um pouco disso. E as mostras de repertório, uma tradição da casa. O CCSP é também um espelho dessa programação, até pelos arquivos que temos. Nem só o que acontece aqui é o que fica registrado aqui. Entre 26 de abril e 1º de maio toda a programação estará voltada à 6ª Mostra Latinoamericana de Teatro, que esse ano acontece aqui.

Os “largos” são uma preocupação mais propositiva de tirar um pouco o olhar da produção e passá-lo para a recepção. Pensar como o teatro tem se relacionado com o publico. O CCSP é um espaço de convívio, aqui você pode simplesmente estar, além de transitar. Há um projeto junto com a curadoria de Teatro Infanto-Juvenil para este ano, provavelmente outubro, destinado a crianças de zero a três anos, ao mesmo tempo, para as mães  Sempre tivemos aqui muitas crianças e jovens, temos que pensar disso, fazer encontros.

E as “estruturas” consistem em abrir a linguagem para o público. Trazer as formas de organização dos coletivos, os processos de criação. Uma é o projeto Monte e Desmonte, que são encontros com os artistas em cartaz. Conversas, processos, demonstrações, encontros entre coletivos. A outra atividade dentro dessas é o DCC, da Ana Roxo e Claudia Schapira, que além de continuar acontecendo no Núcleo Bartolomeu também vai ser feito aqui toda última quarta do mês aqui na Sala Adoniran Barbosa. Em março (21 e 22), a Cia. Hiato vem aqui fazer ensaios abertos do novo espetáculo, “O Jardim”, além de reencenar o repertório: Cachorro Morto e Escuro.

Há também uma preocupação em pensar o espaço como elemento ligado à produção, não só à exibição?

Exatamente. A ideia é que sejamos um espaço em que o artista seja acolhido em sua criação e compartilhe isso com o público. Para isso, temos o plano de uma grande reforma de salas, que está para acontecer. É necessário que aconteça, e ainda esse ano. De certa forma, estamos tentando ocupar o corpo do CCSP. A Denise Stoklos fez sua mostra de repertório na Praça das Bibliotecas, e deu muito certo. O pessoal do Les Commediens Tropicales vai ocupar vários lugares da casa em abril. A idéia é não se prender à circunstância das salas.

E planos em relação a memória, arquivos, acervos…?

Há algumas coisas bacanas. O João Caldas propôs um projeto de completar o acervo fotográfico desses 30 anos de atuação do CCSP. Há um bom material, mas faltam coisas, e ele se dispôs a completá-lo. Deve acontecer ainda esse ano. Outro projeto que temos em mente fazer algo com o acervo do Teatro de Arena, que está aqui, todo catalogado, mas ainda não foi exposto…

E pessoalmente, pra você, como é estar à frente da curadoria?

Estou super desafiada. E muito feliz. Para todo mundo que faz teatro, tanto daqui como de fora, o CCSP é muito importante. É um verdadeiro espaço de formação na minha vida como atriz, como pessoa de teatro. É uma coisa meio paralela. Trabalhar num órgão publico, com politica cultural, e também como artista, é uma vida dupla. Eu tirei um ano sabático do coletivo que faço parte, há. essa ambiguidade. Acho importante ser artista para ser gestor, mas como mediar isso? No começo foi mais complicado, agora já acostumei…

E o que você enxerga hoje como resultado da experiência no Teatro Vocacional?

Eu acho que mudou, mudou muito. Aquela experiência foi transformadora. Óbvio que hoje o vocacional tem suas diferenças, outro aspecto. A cidade mudou, o Fomento é responsável por isso. É toda uma produção a que não se tinha acesso. Existia, mas não circulava. Hoje você tem muito mais registros do que está sendo trabalhado, as publicações, o exercício de convívio entre os grupos. E a questão pedagógica… Para mim, desde o Vocacional isso cada vez mais parece uma coisa só. Estou muito feliz porque vou poder encontrar os grupos do Vocacional aqui. O trabalho é o mesmo. Como é que você divide a produção, questiona, compartilha? Há uma distinção de escala, mas não do fazer. 

A pergunta talvez seja uma só: que teatro queremos para essa cidade.

Exato. E quem é que faz? Quem é que assiste? Você só pode estar em um lugar ou nos dois? De certa forma, a história do teatro de grupo invadiu a questão pedagógica, e trouxe várias contribuições pra isso. Um outro jeito de compartilhar, de pensar o aprendizado e o fazer teatral. Como é que é esse “estar fazendo com outras pessoas” invade a cena? Não no sentido didático, mas no sentido de procedimento de encontro, de construção de conhecimento, o que é próprio da pedagogia.

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