Irreversível

Estadão

31 de agosto de 2010 | 16h57

mentira

Quando um ser humano inala água, esta encharca os alvéolos pulmonares e compromete as trocas gasosas celulares. Com a paralisação do tráfego de oxigênio e gás carbônico, a produção anaeróbica de energia leva a uma desenfreada produção de ácido lático, ligada ao aumento da hipóxia. Diversos processos concomitantes acontecem enquanto a pessoa se debate pela vida: descarga adrenérgica, cianose, destruição das hemáceas. A anóxia liquida órgãos como o coração e o cérebro em questão de minutos. Longos, eternos minutos para o afogado.

Um casal. Uma drástica separação, violência, pólvora, um hospital, lesão cerebral, ameaças. Antigos rancores remoçados, um surdo tique-taque de uma bomba-relógio prestes a explodir. Em Mente Mentira, de Sam Shepard, um implacável mecanismo afoga tudo e todos com uma voracidade que só encontra equivalência na absoluta incapacidade das personagens em enfrentar a realidade que os deglute. Os acontecimentos de desenrolam com a brutalidade de uma barragem rompida, estilhaçando a humanidade das personagens, acuadas em seus medos.

No mundo desesperançado de Shepard, os maniqueísmos são ruidosamente desmontados, a olhos vistos, à medida que os laços vão sendo rasgados em cena. Tal qual um Macbeth red neck, o texto não dá espaço para qualquer redenção. Quando as cortinas se abrem, o pesadelo já está instaurado, e não se acorda no momento em que elas se fecham. O sono, naquela casa, é assassinado. As “frágeis paredes” rompem-se em fissuras pelas quais o passado vem e cobra seu preço.

Paulo de Moraes traz à montagem o costumeiro cuidado visual com que construiu os grandes espetáculos de sua Armazém Companhia de Teatro. Um elenco forte e coeso encara com brio os difíceis caminhos do texto, com precisão e habilidade para atravessar sem erros um caminho que deixa boa margem para excessos, gritos e melodramas. Mente Mentira tem o mérito de ser, em termos de formas narrativas (não em relação ao preço do ingresso, ao menos nesta temporada), um teatro popular, de amplo alcance — uma história difícil, incômoda, acertadamente contada com total clareza e sem emprego de recursos desnecessários.

Deus inexiste no universo construído por Shepard; ou existe, talvez, em alguma memória de esperança que se perdeu no descaminho daquelas almas. O cenário que cruza as histórias em invisíveis planos sobrepostos contribui para a crescente e opressiva asfixia que se abate, feito uma peste, sobre aquelas famílias.

Mente Mentira é um texto forte, executado com rigor e justeza por um elenco afinado. Se a montagem não alarga fronteiras cênicas ou narrativas — e nem se propõe a isso — , seu diálogo com a tradição é essencialmente contemporâneo. Paulo de Moraes não é um revolucionário, como tampouco Shepard o é. Mas a história também é escrita pelos grandes reformistas.

Mente Mentira. Teatro Raul Cortez (522 lug.). R. Dr. Plínio Barreto, 285, Bela Vista, 2626-0261. 6ª e sáb., 21h30; dom., 20h. R$ 60/R$ 70. Até 31/10.

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