Há que se marchar por Zenturo

Estadão

01 de fevereiro de 2011 | 12h13

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Quando dois grupos se unem para uma criação conjunta, é irresistível ceder à tentação de lançar a ela um olhar de natureza comparativa. Conforme a ação dramática se descortina, o que se vê parece estabelecer um diálogo com um lastro inscrito na memória, re-conhecendo percursos traçados em outros trabalhos.

Sob esse aspecto, Marcha Para Zenturo, em cartaz na Sala Jardel Filho do Centro Cultural São Paulo, estabelece um diálogo imediato com os dois coletivos que se juntaram para criá-la: o paulistano Grupo XIX de Teatro e a belorizontina Cia. Espanca!. Isso porque é um espetáculo, antes de tudo, belo. Está ali o mesmo rigor e a mesma sensibilidade que teceram as imagens de Hysteria e de Por Elise, agora em um terreno novo para ambos: uma peça futurista.

Difícil, porém, falar de tempo em uma criação que sugere um prisma, tantos são os sentidos que ilumina. Tempo que passa, implacável à nossa vontade; tempo como distância: futuro (ação) – presente (nós, público) ­– passado (Tchekhov, a peça encenada dentro da peça); tempo que nos aparta; tempo que se ganha/perde/vende; e sem dúvida outros tantos que possa despertar.

Um mundo que derrete diante de nossos olhos. Que marcha silenciosa (por vezes, ruidosa) é essa do gelo que, num lento fazer-se água, invade cada canto do cenário? Toda resposta é possível, desde que verdadeira. Marcha remete a um discurso construído pela Espanca! ao longo de seus espetáculos: a reivindicação amorosa da metáfora. O que se vê é uma sucessão de convites à poesia, símbolos que se reinventam.

No programa da peça, os mineiros definem o espírito de sua produção anterior como um olhar em que “o homem é retratado do ponto de vista do afeto”. A liquefação desse futuro, imaginado na peça, é a aterradora consequência deste mundo que estamos construindo. O esmagamento do sujeito, as paranóias de toda sorte (doenças, terrorismo, violência urbana, calorias), a preponderância do mercado sobre o espólio da falência de instituições – tudo isso leva ao futuro imaginado pelo XIX/Espanca!. O que deixamos de ver, de ouvir? Luiz Fernando Marques propõe, com os desajustes temporais nos diálogos, um engenhoso (e ao mesmo tempo tão evidentemente, tão obviamente simples) jogo quase “cortazariano”. O elenco, uniforme e afinado, confere consistência ao engenho.

Uma apreciação mais imediata do trabalho poderia dizer que a Marcha une o pendor dramatúrgico finamente costurado da Espanca! e a forte poesia visual próprio do XIX. E isso não está errado, mas parece insuficiente, talvez improdutivo, no caso deste trabalho. Um trabalho costurado com tamanha minúcia mostra, enfim, que certas dicotomias sejam vazias. A inequívoca trajetória desses grupos – Hysteria, Hygiene e Arrufos, do XIX; Por Elise, Amores Surdos e Congresso Internacional do Medo, da Espanca! – é constituída por trabalhos em que texto e cena entrelaçam-se intimamente.

Mais do que questões formais, ainda que isso não signifique neste caso absolutamente nenhuma redução em termos de compromisso com o apuro estético, Marcha Para Zenturo é resultado da conjunção de um olhar. Uma inquietação comum, tão íntima e tão gritante – escancarado de maneira comovente por Grace Passô –, isso é o que uniu paulistas e mineiros. O resultado é este espetáculo tão belo, e tão triste.

Marcha Para Zenturo. Centro Cultural São Paulo. Sala Jardel Filho (324 lug.). R. Vergueiro, 1.000, 3397-4002, metrô Vergueiro. 85 min. 14 anos. 6ª e sáb., 21h; dom., 20h. R$ 20. Até 13/2.

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