Um ‘ghetto’ exasperado

Beth Néspoli

27 de março de 2010 | 01h22

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Fábio Herford em Ghetto, dirigido por Elias Andreatto

 

Ghetto, com direção e roteiro de Elias Andreatto, é outro desses espetáculos que, pelo menos na estreia em Curitiba, peca pelo excesso que fragiliza. A matéria-prima do espetáculo, o texto do judeu polonês  Zvi Kolitz encontrado nas ruínas do gueto de Varsória,  é um documento de tal densidade que fala por si. Esse homem registrou num diário, encontrado nas ruínas, a perda de toda sua família, alguns dos momentos de sofrimentos atrozes vividos por seus semelhantes ali e, o mais importante,  seus diálogos com Deus, marcados pela contradição entre o sentimento de injustiça pelo que vive e o desejo de não perder a fé diante da morte inevitável e próxima.

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Enquanto o ator toca piano, a projeção esmaecida de imagens do massacre aos judeus na Segunda Guerra recepciona o público e  cria uma atmosfera apropriada ao que se espera de uma narrativa como essa. A delicadeza, porém, termina aí. Toda a interpretação do ator Fábio Herford é histriônica, exacerbada de tal forma que não abre espaço para o espectador. Não há compartilhamento. Ao público cabe ver e ouvir um espetáculo ora de fúria, ora de auto-comiseração que acaba p0r ficar restrito ao palco, não convidando à reflexão nem à compaixão. Um pouco mais de delicadeza  no trato com as palavras e a densidade da narrativa viria à tona com mais intensidade.

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